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Artigo| Greve: uma aula fora da universidade

Zero Hora – MARCELO ROCHA*  Em artigo publicado em ZH de ontem (“Greve: individualismo e desmobilização”), o historiador Deivis Garlet assevera que a greve constitui-se em “um mecanismo individualista, corporativista e precário” que desmobiliza e provoca, também, a paralisia da classe trabalhadora, tomada em sua coletividade. Com efeito, entendo que o articulista equivoca-se em sua [...]

Zero Hora – MARCELO ROCHA* 

Em artigo publicado em ZH de ontem (“Greve: individualismo e desmobilização”), o historiador Deivis Garlet assevera que a greve constitui-se em “um mecanismo individualista, corporativista e precário” que desmobiliza e provoca, também, a paralisia da classe trabalhadora, tomada em sua coletividade. Com efeito, entendo que o articulista equivoca-se em sua premissa, o que atrapalha, por conseguinte, e compromete suas inferências.

Na greve dos professores das universidades federais, por exemplo, há inúmeros elementos que devem ser levados em conta e que, muitas vezes, passam despercebidos por uma leitura célere ou frívola. Em primeiro lugar, a coesão do movimento apresenta-se já na quantidade de instituições envolvidas nesta greve, ou seja, são 57 de 59 universidades federais que estão paradas, em uma das maiores mobilizações da história da categoria no Brasil.

Em universidades mais novas, criadas a partir da expansão do Ensino Superior do governo Lula, como a Universidade Federal do Pampa, da qual faço parte, muitos pontos de pauta de professores, técnicos-administrativos e estudantes foram discutidos de maneira conjunta. Trabalhadores e estudantes de muitas dessas instituições sentem, diariamente, os efeitos de um processo de precarização das condições de trabalho em prédios onde faltam, ainda, laboratórios de ensino ou condições básicas de subsistência para os estudantes do nosso Estado e, sobretudo, para os que vêm de fora do Rio Grande do Sul. A esses problemas de infraestrutura, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, referiu-se, jocosamente, comparando-os às “dores de um parto”.

A discussão sobre a reestruturação da carreira docente, portanto, muito além das demandas salariais, preconiza uma valorização do trabalho do professor e da qualidade da educação pública. No processo ensino-aprendizagem, nosso trabalho, evidentemente, nunca é solitário, mas, ao contrário, ele se efetiva a partir da intersubjetividade, do diálogo constante e da inter-relação entre a sala de aula e o espaço social.

O movimento de greve, nesse sentido, não é individualista na medida em que pode provocar uma reflexão sobre o verdadeiro tratamento conferido à educação, para além da retórica contumaz de discursos midiáticos e eleitorais. Assim, o movimento paredista também pode ser uma verdadeira aula à sociedade e aos nossos alunos. Uma aula que revela sobre linguagem e ideologia na relação dos que nos governam e enfatizam a importância da educação, mas, na prática, após mais de 70 dias de greve, negociaram apenas duas vezes com quem trabalha, com afinco, profissionalismo e, muitas vezes, com coragem por uma educação melhor em nosso país.

 *Professor adjunto da Universidade Federal do Pampa (Unipampa _ campus São Borja)

http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2012/08/04/artigo-greve-uma-aula-fora-da-universidade/?topo=13,1,1,,,13

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