Início > Artigos > Trabalhadores, Anarquistas e Sindicalistas no Contexto Histórico Marxista
Trabalhadores, Anarquistas e Sindicalistas no Contexto Histórico Marxista

RESUMO: Este estudo procurar discutir a relação fundamental do capitalismo. Contudo, entende-se que os capitalistas pagam aos trabalhadores salários em troca de um determinado número de horas de trabalho. É nesse ponto que essa relação disfarça uma desigualdade real. Isso significa dizer que os capitalistas se apropriam de parte da produção dos trabalhadores. É preciso [...]

RESUMO: Este estudo procurar discutir a relação fundamental do capitalismo. Contudo, entende-se que os capitalistas pagam aos trabalhadores salários em troca de um determinado número de horas de trabalho. É nesse ponto que essa relação disfarça uma desigualdade real. Isso significa dizer que os capitalistas se apropriam de parte da produção dos trabalhadores. É preciso destacar ainda que o sindicalismo é o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus interesses. Em seguida, ao mesmo tempo, é também uma doutrina política segundo a qual os trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade. Além disto, o movimento sindical efetivou-se basicamente no século XX, em decorrência do processo de industrialização, e esteve ligado a correntes ideológicas como o positivismo, o marxismo, o socialismo, o anarquismo, o anarco-sindicalismo, o trabalhismo vanguardista, e o populismo. Palavras – Chave: Trabalhadores – Anarquistas – Sindicalistas.

“Penso que perderíamos a dimensão da utopia anarquia se nos mantivéssemos presos à lógica do partido. Afinal, os libertários difundem uma outra concepção do poder que recusa percebê-lo apenas no campo da política institucional. Por isso mesmo, desenvolvem intensa atividade de crítica da cultura e das instituições e formulam todo um projeto de mudança social que engloba os pequenos territórios da vida cotidiano. Propõem múltiplas formas de resistência política, que investem contra as relações de poder onde quer que se constituam: na fábrica, na escola, na família, no bairro, na rua. Desvendam os inúmeras e sofisticados mecanismos tecnológicos do exercício da dominação burguesa.(RAGO, 1985, p. 14)

No conteúdo desta citação que Margareth Luzia Rago apresenta em seu estudo científico sobre as primeiras manifestações anarco-sindicalista e os ideais operários em confronto com um patronato encabeçado pelo discurso do exercício de dominação burguesa, no fim do século XIX e início do século XX, tendo como espaço de conflitos de interesses de ambos os lados, às fábricas. E é esta a proposta da primeira questão, enriquecer a discussão histórica sobre as relações de poder do sujeito deste contexto percebendo as variadas formas de transgressões, resistências, permanências, rupturas, estratégias, em fim, toda dinâmica presente neste período de consolidação e implantação do discurso republicano.

Uma ligeira contextualização: Desde o século XIX, boa parte da Europa já vive a fomentação da expansão do capitalismo industrial, principalmente Inglaterra e França que são modelos desta nova política mercadológica. Como um apêndice, a elite dirigente do Brasil no início do século XX, incorpora esta idéia de industrialização nacional tendo por base à própria fábrica e seus componentes como mão-de-obra barata e a maquinária trabalhando em pleno vapor sempre sobre o seu comando e virgília. Daí, o texto ” Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar” de Margareth Luzia Rago, que discute a concepção de fábrica satânica que passa por uma transição até a nova concepção de fábrica higiênica, tendo como base para esta problemática a dinâmica que envolve estas relações de poder.

“Os industriais procuram convencer a sociedade da necessidade vital do aumento da produtividade do trabalho para construir a riqueza da nação por esses homens, mulheres e crianças que deveriam submeter-se sem nenhuma objeção”.(RAGO, 1985, p. 18)

É desta citação e seu conteúdo problematizador que percebemos o nítidointeresses dos industriais ao usarem o discurso de riqueza nacional ligada ao “desenvolvimento” e o “progresso” para justificarem a submissão e o convencimento de homens, mulheres e crianças no trabalho duro e produtivo. Mas, estamos falando do contexto histórico da formação e consolidação da república no Brasil, isto nos leva a mobilizações, readaptações, fluxos e refluxos sociais, além das mudanças de hábito do cotidiano e de novas resignificações dos trabalhadores fabris.

“O discurso operário sobre a fábrica traduz, desde cedo, a revolta contra a imagem edulcorada do mundo do trabalho projetada pelo imaginário burguês. Falar da fábrica significa, nesta perspectiva, questionar praticamente a organização capitalista do processo de produção por vários lados. Neste movimento, as estratégias de luta preconizadas pelos libertários, desde a sabotagem, o boicote, o roubo, a destruição de equipamentos, até a greve geral, confluem na direção das práticas de resistência cotidiana criadas pela combatividade operária”. (RAGO, 1985, p. 20)

A citação acima, agora representa o discurso do operário em resposta ao do patronato e o projeto burguês de domínio fabril, e é nesta dinâmica discursiva que tentarei problematizar com o auxílio do texto das primeiras décadas do século XX. A resistência e a transgressão operária é ajustada, incentivada e difundida por intelectuais socialistas e anarquistas como Gigi Damiani, fundador do jornal libertário La Battaglia, ou literários como Edgard Leuenroth que editou a Plebe em 1903, convocando e incentivando as pequenas lutas e resistências diárias do operariado no interior das fábricas: O movimento anarquista como parte desta união ideológica subversiva e opositora da dominação burguesa merece ainda hoje se melhor lida e relida pela historiografia, pois o anarquismo no imaginário de muitas pessoas erroneamente esta representado e associado ao vandalismo, ócio e fanatismo político sem um projeto e causa social, mas, o anarquismo. Podemos perceber que Rago”Propõe uma nova maneira de viver, anuncia um mundo fundado na igualdade, na liberdade e na felicidade, que deve ser construído por todos os oprimidos, aqui e agora”.(RAGO, 1985, p. 16)

É este o contexto do anarquismo e sua proposta nas primeiras décadas do século XX, contexto porque o conteúdo desta citação acima reflete as aspirações e propostas anárquicas. Uma sociedade mais justa, aqui e agora, logo, o boicote, a sabotagem, a resistência ao trabalho nas fábricas e até o incentivo a quebra das máquinas são idéias que surgem desta dinâmica opositora a dominação burguesa, a propriedade privada e os mecanismos de repressão por parte do estado conservador da manutenção e dos interesses do patronato. Mas desta dinâmica entre patronato e a resistência operária, Margareth Luzia Rago de forma investigativa e coerente percebe através de suas pesquisas, as estratégias burguesas que vão se desdobrando no decorrer do século XX, e que são voltadas para tornar os operários de perigosos manifestantes subversivos em operários de corpos dóceis.

Veja também