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CIT/RS registra aumento de intoxicações por antidepressivos

A informação está inclusa na publicação “Toxicovigilância e Toxicologia Clínica: Dados e Indicadores Relacionados do Rio Grande do Sul 2005″, lançada em agosto.

A informação está inclusa na publicação "Toxicovigilância e Toxicologia Clínica: Dados e Indicadores Relacionados do Rio Grande do Sul 2005", lançada em agosto.

Do total de 5,814 mil casos de intoxicação por medicamentos atendidos no ano passado pelo Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT/RS), departamento da Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (FEPPS), vinculados à Secretaria Estadual da Saúde (SES/RS), 1,139 mil (19,5%) são relativos ao uso de antidepressivos (AD), um aumento de 157% em relação a 2004.

"Estes dados preocupam porque acreditamos ser somente a ponta do iceberg. Intoxicações não exigem notificação obrigatória e os atendimentos do CIT/RS refletem somente os casos de registro espontâneo", afirma a médica toxicologista do CIT/RS Maria Salete de Medeiros.

Segundo ela, atualmente os AD têm uso mais amplo, sendo receitados não só na área de psiquiatria, mas em outras especialidades médicas. "Os antidepressivos têm sido indicados para uma gama bem maior de problemas, como insônia e estresse, muito presentes na sociedade atual. Estes números, na verdade, nos mostram uma determinada conduta social. Outro fator importante é a disponibilidade desses fármacos no ambiente domiciliar, nem sempre guardados em local seguro, o que contribui para a ocorrência das intoxicações", diz a médica.

O psicanalista e antropólogo Eduardo Mendes Ribeiro, consultor da Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão em Saúde do Ministério da Saúde, explica que a questão reside na crença atual de que a ciência pode resolver todos os problemas. "Ao contrário de procurar o que nos faz mal, o que está provocando a depressão ou o mal-estar, tentamos resolver isso com remédios. Acreditar que isto resolve e dá paz basta para a maior parte das pessoas", diz o psicanalista. "Este comportamento é legitimado por uma sociedade que vende a idéia de que não se sofre. E as pessoas não sabem como lidar com as questões que provocam sofrimento, só que elas estão sempre presentes, é impossível fugir delas."

Ribeiro explica que a questão da toxicomania é antiga. "No século passado, por exemplo, algumas drogas, como a cocaína, eram vendidas em farmácias. Nas décadas de 60 e 70, algumas ideologias adotaram o uso de drogas alucinógenas, e nos anos 80, outras substâncias foram adotadas por jovens executivos para agüentar uma rotina com alta carga de trabalho. Ou seja, antes estes medicamentos sempre estiveram ligados a determinados estilos de vida. O problema hoje é que esta idéia está banalizada e praticamente todas as classes sociais estão sendo atingidas por este novo comportamento".

Do total de 1.139 casos de intoxicação por AD realizados pelo CIT, 392 deles foram provocados pelo excesso de Amitriptilina. Em segundo lugar, ficou a Fluoxetina – conhecida no mercado como Prozac -, com 317 registros. Em terceiro, a Imipramina, com 162, e em quarto, o carbonato de lítio (amplamente usado em casos de bipolaridade), com 106.

Maria Salete destaca que o acompanhamento médico adequado, especialmente em pacientes depressivos ou com algum tipo de conduta auto-destrutiva, é uma questão relevante para evitar ocorrências toxicológicas. Por isso, é importante que algum familiar auxilie no controle e uso dos medicamentos. A médica ressalta que a prescrição da receita também não deve disponibilizar quantidades que possam apresentar risco.

Em relação à receita, a compreensão do que está escrito pelo médico também é de extrema importância. "Isso vale para todo o tipo de medicamento, não só os AD. Erros de doses ou troca de fármacos podem ter conseqüências sérias", explica Salete. A auto-medicação também deve ser evitada, mesmo tratando-se de medicamentos de venda livre. Alguns analgésicos, por exemplo, podem apresentar reações adversas e riscos à saúde.

A análise dos gráficos de intoxicação por antidepressivos referente à faixa etária traz à tona outros fatores, como o grande número de intoxicações em crianças, principalmente por volta dos dois anos de vida. "Nesta idade, as crianças têm muita curiosidade, estão começando a descobrir o mundo. Pais e cuidadores (creches, babás) têm que guardar os medicamentos em local seguro, fora do alcance infantil, pois acidentes podem ter seqüelas graves", diz a médica.

Outro pico apresentado nos gráficos do CIT/RS é o abuso de AD aos 21 anos, com destaque para o grande número de tentativas de suicídio por mulheres. "Neste ponto, a diferença entre homens e mulheres é de 4 para 1", conta. O antropólogo Eduardo Mendes Ribeiro acredita que a grande quantidade de casos de jovens intoxicados por antidepressivos ocorra porque são os medicamentos aos quais se tem acesso mais fácil. "Muitos adolescentes encontram facilmente os remédios comprados pelos pais, por exemplo."

Maria Salete afirma que em caso de acidentes com medicamentos ou qualquer outro tipo de produto a pessoa deve ligar imediatamente para o CIT/RS para avaliação imediata, indicação dos primeiros socorros e encaminhamento ao médico ou serviço de saúde, se necessário. "Não é recomendado adotar medidas caseiras ou estimular o vômito, pois isso pode causar complicações ainda mais sérias, especialmente em crianças", alerta.

O telefone de emergência do Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul é 0800-780200. O atendimento é 24 horas por dia.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social do CIT/RS

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