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Debate acalorado dá o tom da campanha presidencial

O debate da TV Bandeirantes foi pau puro e terminou em empate. Em nenhum dos encontros entre candidatos presidenciais, desde a redemocratização, a temperatura esteve tão elevada. Alckmin, dois tons acima de seu normal, milimetricamente ensaiado, começou impondo o ritmo.

O debate da TV Bandeirantes foi pau puro e terminou em empate. Em nenhum dos encontros entre candidatos presidenciais, desde a redemocratização, a temperatura esteve tão elevada. Alckmin, dois tons acima de seu normal, milimetricamente ensaiado, começou impondo o ritmo.

Perguntado sobre corte de despesas num futuro governo, disparou a queima-roupa: “Vou cortar primeiro na corrupção”. E enumerou dados e casos de como o desvio de dinheiro público é nocivo ao país.

Lula, que talvez não esperasse um ataque tão pesado, logo de saída, piscou. Começou a responder sem sequer dar boa noite aos telespectadores, visivelmente nervoso. Com ironia, acusou o PSDB de só cortar no salário dos trabalhadores e de se esquecer que em 2003 o governo petista encontrou o país falido. Foi a deixa para o ex-governador de São Paulo valer-se de artilharia pesada: “Lula, de onde saiu o R$ 1,7 milhão para a compra do dossiê?”.

O presidente tergiversou, quis saber do conteúdo do dossiê e prometeu que a Polícia Federal vai descobrir tudo. Alegou não ser policial. Em seguida devolveu a estocada, perguntando sobre o possível envolvimento do tucano Barjas Negri no caso dos sanguessugas.

Eletrizante

Ágil e, por vezes, eletrizante, o debate foi um dos raros momentos empolgantes de uma campanha eleitoral que vinha morna até duas semanas atrás. Sabendo da desvantagem que tem nas pesquisas e incensado ao patamar de predileto de boa parte da mídia – basta ver as capas de Veja e Época deste fim de semana – o tucano adotou o estilo bate primeiro e pergunta depois. Por várias vezes atacou o presidente da República bem abaixo da cintura. “Não minta, Lula” e “arrogante”, foram expressões repetidas duas ou três vezes ao longo do encontro.

O petista, por sua vez, não se esqueceu dos 69 pedidos de CPIs bloqueados na Assembléia legislativa de São Paulo, por força do rolo compressor do Palácio dos Bandeirantes, e nem do possível envolvimento do PSDB mineiro com o valerioduto, em 1998. A troca de torpedos manteve a tensão no limite da boa educação e a platéia – ou torcidas – nos estúdios da TV Bandeirantes, em São Paulo, diversas vezes foram alertadas para que evitasse manifestações ruidosas.

No segundo bloco, Lula tentou levar o enfrentamento para o terreno da comparação entre governos. Foi quando se recuperou e acusou o PSDB de ter duas linhas de ação: “Aumentar impostos e privatizar o patrimônio público”. A partir daí, cada escândalo dos últimos anos, de lado a lado, foi trazido aos holofotes, da compra de votos para a reeleição no governo FHC, ao caso do mensalão. A dada altura, os dois passaram a medir qual a melhor política social, se o Bolsa-escola de Fernando Henrique ou o Bolsa-família de Lula.

Disputa programática

Lula rateou quando o tucano o acusou de esbanjador, por ter comprado “um avião luxuoso” como o Aerolula, cujo preço equivaleria ao de quatro hospitais. Prometendo vender o jato, caso eleito, e dando como exemplo iniciativa semelhante tomada em São Paulo, Alckmin deixou o petista momentaneamente sem ação. Quando este falou em segurança, foi a vez do tucano enfrentar dificuldades.

O debate macroeconômico, por sua vez, soou artificial, pois aí residem as maiores semelhanças entre os candidatos. Não houve disputa programática real, mas em alguns pontos as diferenças entre ambos ficaram menos embaralhadas. Um deles foi quando Alckmin acusou a política externa de Lula de “fracassada”, citando como um dos exemplos, a nacionalização do gás boliviano. “O Brasil foi humilhado”, disparou ele, fazendo coro com as formulações conservadoras. A resposta de Lula foi seu ponto alto.

“A Bolívia fez com o gás dela o que todos os países fizeram com o petróleo. O Brasil tem que ser justo na negociação. Já houve tempo em que a bravata com os países pobres predominava, agora não, agora é parceria”. E fustigou pesado o ex-governador, acusando-o de viver ainda no tempo da Guerra Fria. Comparou-o com o presidente dos EUA, que atacou militarmente nações mais fracas. "Se o Bush tivesse o bom senso que eu tenho, não faria a guerra do Iraque. Ele foi avisado. Ele pensava que nem você, Alckmin, e fez uma barbárie dessas".

Lula explorou mal a questão de violência e poderia ter lembrado dos ataques do PCC com mais ênfase. E Alckmin evidenciou seus pontos fracos ao falar de segurança e transparência na gestão pública.

O empate no debate, por enquanto, tende a favorecer Lula, que tem dianteira nas pesquisas. Mas o tom da jornada até dia 29 está dado: pancadaria pura até o primeiro sangrar. Emoção não vai faltar.

Fonte: Gilberto Maringoni/Agência Carta Maior
Foto: Fabio Nunes/Band

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