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Feministas convocam greve internacional para o 8 de março

As autoras pretendem mobilizar mulheres e seus apoiadores de todo o mundo em um dia de greves e grandes marchas contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos.

Por: Bruna Quinsan, de São Carlos, SP

Angela Davis

Sete feministas, entre elas Angela Davis e Nancy Fraser, assinaram uma convocação para uma greve internacional no 8 de março. No texto, elas apresentam novos movimentos de mulheres que estão surgindo pelo mundo. Esses movimentos se colocam na luta contra a violência contra as mulheres, ao mesmo tempo em que combatem o racismo, a LGBTfobia, a xenofobia, o imperialismo e o neoliberalismo. As autoras pretendem mobilizar mulheres e seus apoiadores de todo o mundo em um dia de greves e grandes marchas contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos.

Motivos para as mulheres brasileiras se somarem a essa greve não faltam, afinal, treze de nós são assassinadas por dia e a cada onze minutos uma de nós é estuprada no país. Além disso, somos nós as mais atingidas com os ataques de Michel Temer (PMDB), como a Reforma da Previdência e a indicação de Alexandre de Moraes ao STF, que para além de ser o advogado de Eduardo Cunha, deu uma declaração após uma mulher ser estuprada no metrô de São Paulo dizendo que o espaço é seguro, pois o cofre não foi roubado.

Faltando pouco menos de um mês para esse dia internacional de luta, chega a hora de convocar todas as mulheres que pudermos para ocuparmos as ruas. Mulheres negras, trans, lésbicas, bissexuais e trabalhadoras das mais diversas categorias juntas em marcha contra a violência e os retrocessos em curso.

Além do ‘faça acontecer’: para um feminismo dos 99% e uma greve internacional militante em 8 de março

Linda Martín Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Nancy Fraser, Keeanga­Yamahtta Taylor, Rasmea Yousef Odeh e Angela Davis

(Tradução de Daniela Mussi para o Blog Junho)

As grandes marchas de mulheres de 21 de janeiro [nos Estados Unidos] podem marcar o início de uma nova onda de luta feminista militante. Mas qual será exatamente seu foco? Em nossa opinião, não basta se opor a Trump e suas políticas agressivamente misóginas, homofóbicas, transfóbicas e racistas. Também precisamos alvejar o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas. Enquanto a misoginia flagrante de Trump foi o gatilho imediato para a resposta maciça em 21 de janeiro, o ataque às mulheres (e todos os trabalhadores) há muito antecede a sua administração. As condições de vida das mulheres, especialmente as das mulheres de cor e as trabalhadoras, desempregadas e migrantes, têm­se deteriorado de forma constante nos últimos 30 anos, graças à financeirização e à globalização empresarial. O feminismo do “faça acontecer”[1] e outras variantes do feminismo empresarial falharam para a esmagadora maioria de nós, que não têm acesso à autopromoção e ao avanço individual e cujas condições de vida só podem ser melhoradas através de políticas que defendam a reprodução social, a justiça reprodutiva segura e garanta direitos trabalhistas. Como vemos, a nova onda de mobilização das mulheres deve abordar todas essas preocupações de forma frontal. Deve ser um feminismo para 99% das pessoas.

O tipo de feminismo que buscamos já está emergindo internacionalmente, em lutas em todo o mundo: desde a greve das mulheres na Polônia contra a proibição do aborto até as greves e marchas de mulheres na América Latina contra a violência masculina; da grande manifestação das mulheres de novembro passado na Itália aos protestos e greve das mulheres em defesa dos direitos reprodutivos na Coréia do Sul e na Irlanda. O que é impressionante nessas mobilizações é que várias delas combinaram lutas contra a violência masculina com oposição à informalização do trabalho e à desigualdade salarial, ao mesmo tempo em que se opõem as políticas de homofobia, transfobia e xenofobia. Juntas, eles anunciam um novo movimento feminista internacional com uma agenda expandida – ao mesmo tempo anti­racista, anti­imperialista, anti­heterossexista e anti­neoliberal.

Queremos contribuir para o desenvolvimento deste novo movimento feminista mais expansivo.

Como primeiro passo, propomos ajudar a construir uma greve internacional contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos no dia 8 de março. Nisto, nós nos juntamos com grupos feministas de cerca de trinta países que têm convocado tal greve. A ideia é mobilizar mulheres, incluindo mulheres trans, e todos os que as apoiam num dia internacional de luta – um dia de greves, marchas e bloqueios de estradas, pontes e praças; abstenção do trabalho doméstico, de cuidados e sexual; boicote e denuncia de políticos e empresas misóginas, greves em instituições educacionais. Essas ações visam visibilizar as necessidades e aspirações que o feminismo do “faça acontecer” ignora: as mulheres no mercado de trabalho formal, as que trabalham na esfera da reprodução social e dos cuidados e as desempregadas e precárias.

Ao abraçar um feminismo para os 99%, inspiramo­nos na coalizão argentina Ni Una Menos. A violência contra as mulheres, como elas a definem, tem muitas facetas: é a violência doméstica, mas também a violência do mercado, da dívida, das relações de propriedade capitalistas e do Estado; a violência das políticas discriminatórias contra as mulheres lésbicas, trans e queer, a violência da criminalização estatal dos movimentos migratórios, a violência do encarceramento em massa e a violência institucional contra os corpos das mulheres através da proibição do aborto e da falta de acesso a cuidados de saúde e aborto gratuitos. Sua perspectiva informa a nossa determinação de opormo­nos aos ataques institucionais, políticos, culturais e econômicos contra mulheres muçulmanas e migrantes, contra as mulheres de cor e as mulheres trabalhadoras e desempregadas, contra mulheres lésbicas, gênero não­binário e trans­mulheres.

As marchas de mulheres de 21 de janeiro mostraram que nos Estados Unidos também um novo movimento feminista pode estar em construção. É importante não perder impulso. Juntemo­nos em 8 de março para fazer greves, atos, marchas e protestos. Usemos a ocasião deste dia internacional de ação para acertar as contas com o feminismo do “faça acontecer” e construir em seu lugar um feminismo para os 99%, um feminismo de base, anticapitalista; um feminismo solidário com as trabalhadoras, suas famílias e aliados em todo o mundo.

(Publicado originalmente em Viewpoint Magazine.)

Nota:

[1] “Faça acontecer” é uma referência ao movimento inspirado no livro de Sheryl

Sandberg, Lean in: Women, work, and the will to lead (New York: Random House,

2013. Versão em português Faça acontecer: mulheres, trabalho e a vontade de liderar. São Paulo: Companhia das Letras, 2013). A principal característica do movimento é a ênfase no empreendedorismo feminino (N. Da T.).

Fonte: Esquerda Online

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