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Lugar de Negro, 30 anos depois

Quando Lélia Gonzáles e Carlos Hasenbalg publicaram um pequeno livro intitulado Lugar de Negro, em 1982, abordando o racismo e os problemas dele decorrentes, denunciaram a crença, corriqueira no Brasil, de que negros e negras deveriam peremptoriamente ocupar os espaços e as funções mais desvalorizados possíveis. No inicio dos anos 1980, os autores tentavam diagnosticar [...]

Quando Lélia Gonzáles e Carlos Hasenbalg publicaram um pequeno livro intitulado Lugar de Negro, em 1982, abordando o racismo e os problemas dele decorrentes, denunciaram a crença, corriqueira no Brasil, de que negros e negras deveriam peremptoriamente ocupar os espaços e as funções mais desvalorizados possíveis. No inicio dos anos 1980, os autores tentavam diagnosticar os efeitos perversos da violência racial, alimentada por um imaginário contaminado pelo legado da escravidão.

Trinta anos depois, a atualidade desse texto é constatada por cenas estarrecedoras como as que foram postadas na internet recentemente, mostrando a ação da Polícia Militar no campus Butantã da Universidade de São Paulo. Uma aparente negociação entre membros da tropa e universitários que ocupavam um dos prédios da USP, onde decidiram instalar o DCE, terminou com um rompante do sargento André Luis Ferreira, tamanho foi o seu mal-estar ante a presença naquele espaço de Nicolas Menezes Barreto, graduando do curso de Ciências da Natureza daquela instituição.

O policial parece ter detectado um corpo estranho no ambiente e logo tratou de tomar suas providências: colocar em cheque a legitimidade do rapaz e agredi-lo fisicamente diante dos colegas. Um espetáculo humilhante. Nicolas reconhece que era o único universitário de tez escura a participar daquilo que seria supostamente um diálogo. Não levou muito tempo para perceber que sua presença no recinto era incômoda.

Esse episódio merece nossa atenção. Talvez Nicolas esteja equivocado ao alegar que aquele ato se constituía em uma prática de racismo implícito por parte do policial.

O ocorrido foi uma manifestação explicita de intolerância que reforça as noções de que espaços de prestígio como a USP não são para negros. Incidimos em erro quando tendemos a atribuir a ações desmesuradas como esta um caráter particular, individual. O imaginário de que falavam Gonzales e Hasenbalg está aí, com sua dimensão ideológica, insuflando posturas reacionárias contra quaisquer políticas públicas que vislumbrem uma participação maior de tantos Nicolas nos campi das universidades brasileiras.

O afastamento do sargento, bem como de seu colega, o soldado Rafael Ribeiro Fazolin, por desvio de conduta, obviamente cumpre uma função estratégica diante da evidência do registro das imagens capturadas. Todavia, reduzir o problema a um ou dois membros da corporação é uma simplificação absurda. A questão está relacionada a um ethos que norteia o aparato de segurança. Pessoas negras tem sido historicamente o alvo preferencial das abordagens policiais, independente da condição social.

Para os alegres equivocados, como diria o saudoso Abdias do Nascimento, que persistem em dizer que tudo é questão de classe, fica mais um desafio. Ser aluno negro da universidade mais renomada do país e portanto pertencer a uma elite cultural não garante qualquer blindagem, não impede que o olho clínico do racismo identifique aqui e ali as pessoas que supostamente deveriam exercer outras atividades que não as intelectuais.

Aos docentes e pesquisadores que ainda investem no diálogo entre universidade e sociedade o referido acontecimento é um convite à reflexão sobre relações raciais no Brasil. Algo que grande parte da elite nacional terminantemente recusa-se a fazer.

NOTA DE APOIO A ESTUDANTES DA USP

 NÃO AO AUTORITARISMO E A FALTA DE DEMOCRACIA NA UNIVERSIDADE

 A Federação de Sindicatos de Trabalhadores técnico-administrativos em Instituição de Ensino Superior Públicas do Brasil – FASUBRA Sindical vem a público defender a autonomia universitária com democracia, em todas as instâncias das universidades e condenar o abuso de autoridade e práticas ditatoriais que vêm ocorrendo no interior da Universidade de São Paulo (USP), maior Universidade Pública Brasileira e uma das maiores Instituições de Ensino Superior na América Latina.

 Esta semana a USP foi palco de mais um noticiário que vai de encontro ao princípio estratégico da universidade brasileira e que tem sido tão caro aos movimentos sociais, o direito ao exercício da cidadania com garantia da democracia plena em todos os espaços de decisão e convivência, uma organização laica, referenciada socialmente e livre das práticas racistas tipificadas no Art. 5º da Constituição Federal Brasileira.

 A vítima mais recente foi o estudante Nicolas Menezes Barreto que foi agredido, dentro do campus Butantã, por um agente repressor do estado, representado naquele momento pelo sargento da PM André Luiz Ferreira. O estudante afirma que foi vítima de racismo quando diz: “Eu era o único negro lá (…) sem dúvida foi racismo”.

 Importante mencionar que nada disso teria ocorrido se a reitoria não tivesse determinado a desocupação do antigo centro de convivência da USP, atualmente utilizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), único espaço de convívio dos que moram no campus, ou seja, ao invés de providenciar espaço de convivência para os estudantes ou buscar a democracia através do diálogo com o órgão de representação estudantil, a reitoria preferiu se utilizar da força repressora e o despreparo do policial militar para agredir, com arma em punho, um dos representantes da razão de existência da universidade, o estudante. Fato esse que nos remete às memórias terríveis ocorridas no período da ditadura militar.

 Não é a primeira vez que o reitor João Grandino Rodas age autoritariamente, tanto é que firmou convênio para garantir a presença da polícia militar no campus da universidade, na verdade, tem agido como interventor, inclusive, valendo-se da lista tríplice, aceitou ser empossado pelo governador do estado, mesmo tendo ficado em segundo lugar na eleição para a reitoria da USP, quando foi derrotado pelo professor Glaucius Oliva.

 Nesse contexto, a FASUBRA Sindical apóia a luta democrática e justa dos estudantes da USP em defesa da democracia, se solidariza ao estudante Nícolas e todos aqueles (as) que não se calam diante da prepotência, autoritarismo e práticas antidemocráticas e repressoras ocorridas no âmbito da USP ou de qualquer outra universidade brasileira.

 De igual modo, condenamos a ação abusiva e agressiva da Policia Militar contra estudantes que se encontravam no interior do campus Butatã/USP, no último dia 06 de janeiro, bem como, rechaçamos a determinação inábil do reitor João Galdino Rodas em acionar a polícia militar para resolver problemas de caráter político e administrativo.

 Brasília-DF, 13 de janeiro de 2012.

 Léia de Souza Oliveira Sandro de Oliveira Pimentel

 Coordenadora Geral Coordenador de Formação e Comunicação Sindical

 Rogério Fagundes Marzola Mário Márcio Garofolo

 Coordenador de Raça e Etnia Coordenador de Seguridade Social

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