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Mudança climática: Como era verde a minha imagem

Com a dura confirmação de que o aquecimento global está transformando o mundo, haverá uma nova era de lavagem de imagem pró-ambientalista do mundo empresarial, desesperados programas de “geoengenharia” e especulação com créditos de carbono, alertam ativistas.

Por Stephen Leahy, da IPS

Com a dura confirmação de que o aquecimento global está transformando o mundo, haverá uma nova era de lavagem de imagem pró-ambientalista do mundo empresarial, desesperados programas de “geoengenharia” e especulação com créditos de carbono, alertam ativistas. Os piores impactos do aquecimento da Terra incluem aumento das inundações, secas e tempestades. A evidência científica demonstrativa de que a mudança climática é causada pela atividade humana já é esmagadora, como ficou exposto na apresentação, no último dia 2, do Quarto Informe de Avaliação do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês).

Muitos cientistas e ambientalistas dizem que as únicas perguntas científicas importantes que restam são quanto vai piorar e o que se pode fazer para reduzir os impactos. A maioria defende reduções imediatas e drásticas dos gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono, emitido principalmente pela indústria e pelo transporte, que contribuem para o aquecimento do planeta. Porém, para muitas das nações com grande desenvolvimento industrial fica difícil digerir os custos econômicos desta proposta.

Por outro lado, alguns países, liderados pelos Estados Unidos, voltam suas vistas para programas de geoengenharia, tentativas em grande escala de manipular o meio ambiente para produzir uma mudança, segundo o Grupo ETC, uma organização não-governamental canadense. Muitos desses programas atualmente estão sob estudo científico, e incluem contaminar deliberadamente a estratosfera com diminutas partículas de dióxido de sulfuro ou colocar em órbita bilhões de finíssimos refletores. As duas medidas objetivam desviar a luz solar e esfriar a Terra, segundo o informe Grupo ETC “Gambling whith Gaia” (Especulando com Gaia), divulgado no dia 1º deste mês.

Nos últimos anos foram lançados outros planos de minimização, como despejar toneladas de partículas de ferro nos oceanos para disparar um florescimento do fitoplâncton, com a esperança de absorver mais dióxido de carbono da atmosfera. “Há um pouco de geração de pânico, os governos estão levando a sério estas idéias sem pé nem cabeça”, disse Pat Mooney, do Grupo ETC. A Organização Meteorológica Mundial planeja uma conferência sobre a alteração do clima para este ano, disse Mooney à IPS. “A Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) e a marinha dos Estados Unidos também conversam sobre projetos a portas fechadas”, assegurou.

O governo dos Estados Unidos vem pressionando o IPCC para que inclua a geoengenharia na terceira parte de seu informe, que será apresentado em maio, sobre maneiras para reduzir os impactos da mudança climática. Entretanto, o informe do ETC alerta que “a geoengenharia é a resposta equivocada à mudança climática. Qualquer experimento para alterar a estrutura dos oceanos ou da estratosfera não deveria seguir adiante sem um debate público meticuloso e com informações sobre suas conseqüências”. Enquanto isso, as corporações multinacionais e os políticos se pintam de verde e proclamam que trabalharão para reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa.

O consórcio petrolífero BP América anunciou no último dia 1º que concederia um subsidio de US$ 500 milhões à Universidade da Califórnia, em Berkeley, para pesquisar combustíveis renováveis e energias limpas. “A subvenção da BP é uma forma de ‘lavagem verde’ para que eles pareçam mais verdes do que outras empresas do setor”, disse Pratap Chatterjee, diretor da organização Corpwatch, com sede em Washington. “O que os Estados Unidos necessitam fazer para reduzir as emissões é consumir menos e construir um sistema de transporte público que seja muito melhor”, afirmou Chatterjee em uma entrevista. Combustíveis alternativos, como o etanol, farão pouca diferença, embora representem ganhos para as companhias de petróleo como a BP, acrescentou. “As empresas carregam a maior responsabilidade pela criação do aquecimento global e já passou da hora de começarem a usar seus lucros para ajudar, de fato, a solucionar o problema”, acrescentou o ativista.

No Canadá os políticos lutam para serem os mais verdes entre os verdes. Isso inclui o primeiro-ministro, Stephen Harper, que há apenas um ano questionou a validade da ciência no tocante à mudança climática, mas agora, diz que o Canadá “deve agir” para frear o aquecimento global. “Os políticos e outros dirão ‘finalmente estamos enfrentando o problema’, porém, isso não será verdade”, assegurou Mooney. Em lugar de aceitar o giro em direção ao verde, o público deveria insistir em reduções obrigatórias, imediatas e substanciais em todos os setores, e multas por descumprimento, acrescentou. “Qualquer coisa que seja menos do que isso não funcionará e será apenas uma fachada”.

Sabendo que está crescendo a maré verde, nos Estados Unidos existe uma grande pressa para construir novas usinas elétricas alimentadas a carvão, antes que qualquer teto para as emissões de carbono seja incorporado a uma lei, disse David Archer, especialista em clima da Universidade de Chicago. A TXU, uma empresa com sede em Dallas (Texas), planeja construir nesse distrito 11 usinas alimentadas a carvão nos próximos anos, o que resultará em emissões anuais de 78 milhões de toneladas de dióxido de carbono contribuindo para o aquecimento global.

Entre 130 e 160 usinas foram propostas para atender as necessidades energéticas dos Estados Unidos, que aumentam rapidamente. Uma vez construídas, podem operar por 50 anos ou mais. No passado, além das severas normas aprovadas em matéria de contaminação, as usinas existentes habitualmente são exoneradas de seu cumprimento (conceito que em inglês se resumiu em um só verbo: grandfhater, derivado da palavra avô). Este passou a ser um assunto de grande preocupação. “No solo há, pelo menos, 50 vezes mais carvão do que petróleo”, disse Archer.

O comércio de créditos é um complexo sistema previsto no Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, no qual as empresas de países industrializados que emitem gases causadores do efeito estufa podem comprar créditos em países em desenvolvimento. Uma fábrica alimentada a carvão na Europa, por exemplo, pode continuar emitindo milhões de toneladas de dióxido de carbono se comprar créditos em outra parte. O comércio de créditos de carbono se converteu em uma indústria multimilionária, e os que dele participam estão financiando programas de geoengenharia, como a fertilização oceânica para criar “créditos” que possam vender às companhias, diz o informe do ETC.

“O mercado europeu de comércio de créditos de carbono é um completo fracasso. Simplesmente diminui o ritmo das reduções de emissões”, afirmou Mooney. Os governos devem tornar obrigatórias as reduções das emissões e não permitir o comércio, acrescentou, ressaltando que “a especulação com os créditos de carbono já está acontecendo e vai piorar”.

Fonte: Envolverde/ IPS

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