Início > Notícias > Para além das chuvas de Santa Catarina: reflexões sobre as responsabilidades e as irresponsabilidades que contribuíram para este fenômeno
Para além das chuvas de Santa Catarina: reflexões sobre as responsabilidades e as irresponsabilidades que contribuíram para este fenômeno

Além de se mover em uma ação de solidariedade para oferecer alguma forma de amparo para as milhares de vítimas da tragédia que se abate sobre Santa Catarina, a coordenação do Sintufsc faz uma manifestação buscando refletir sobre as responsabilidades e as irresponsabilidades que contribuem para este fenômeno que não é puramente “natural” como alguns querem fazer crer.





Além de se mover em uma ação de solidariedade para oferecer alguma forma de amparo para as milhares de vítimas da tragédia que se abate sobre Santa Catarina, a coordenação do Sintufsc faz uma manifestação buscando refletir sobre as responsabilidades e as irresponsabilidades que contribuem para este fenômeno que não é puramente “natural” como alguns querem fazer crer. A geóloga e pesquisadora do grupo de estudos de Desastres Ambientais da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Maria Lúcia de Paula Hermman, por exemplo, é uma das vozes que se levanta para dizer, em entrevista à imprensa, que as características do solo e do relevo e as condições climáticas anômalas não são capazes de, sozinhas, explicar a tragédia ocorrida em Santa Catarina. Segundo a professora, mais do que os fenômenos naturais, o descaso do poder público ao longo das últimas décadas foi a principal razão do elevado número de mortos, desabrigados e desalojados em decorrência das chuvas que atingiram o Estado no mês de novembro.

Segue o texto da manifestação dos coordenadores do Sintufsc…

PARA ALÉM DAS CHUVAS

O caos de cidades inteiras embaixo d’água e o drama das famílias trabalhadoras que perdem de uma só vez quase tudo o que têm, quando não a própria vida, são a face mais terrível e visível de um desastre que atinge pelo menos 1,5 milhão de catarinenses.

Os números malditos não param de aumentar: mais de 78.000 desabrigados e desalojados, pelo menos uma centena de mortos, dezenas de desaparecidos. Fora o que ainda não se “contabilizou” nas estatísticas fatais que depois, em geral, não revertem em ações concretas de prevenção para evitar os desastres ou reduzir o impacto do que não se pode prevenir.

Esta tragédia poderia ser evitada? Essa é a pergunta que não pára de gritar em dezenas de vozes que se levantam país afora?

Santa Catarina já passou por situações semelhantes, particularmente nas enchentes de 1983 e1984. Aspectos climáticos e geológicos favorecem a ocorrência deste tipo de fenômeno no litoral de nosso estado, particularmente na região do Vale do Itajaí.

Exatamente por isso, caberia ao poder público criar as condições para prevenir novos desastres, diminuindo os efeitos potenciais das chuvas. É mais do que evidente que isso não foi feito. Como também, a depender dos governos que aí estão, novas tragédias como esta infelizmente tenderão a se repetir.

Os projetos de engenharia necessários à prevenção de novos desastres na região de Blumenau são velhos conhecidos que nunca saíram do papel. Além disso, o desmatamento segue, deixando as terras mais propícias a deslizamentos. Com dinheiro na mão, qualquer empresário compra licenças ambientais para seus empreendimentos especulativos na região litorânea. E investigações abertas para averiguar operações do tipo da malfadada Moeda Verde acabam fazendo água para todos os lados. Ou, quando muito, punem os mais de baixo. Os de cima são inclusive premiados e reeleitos para cargos públicos.

Agora, para piorar, Luiz Henrique quer aprovar a toque de caixa um novo Código Ambiental (PL 0238.0/2008), que autoriza a total destruição dos ecossistemas em Santa Catarina. Maior destruição ambiental, maior aquecimento global, terreno fértil para a ocorrência das chamadas “catástrofes naturais” contemporâneas.

Diversos prefeitos vêm passando uma frágil camada de asfalto nas ruas – vendidos em propagandas enganosas que falam das maravilhas do “tapete preto” para a vida da comunidade. Essas “cascas” mal feitas e caras, sem o devido sistema de escoamento, de forma irresponsável e eleitoreira só podem acentuar um resultado. Enchentes! E o que dizer do saneamento básico? Santa Catarina tem um dos piores índices nessa área frente às demais regiões do Brasil, que também não são exemplo para ninguém. Com as chuvas, os rios carregados de dejetos se mesclam às águas das chuvas, invadem as ruas e residências, e multiplicam os problemas de saúde pública.

O crescimento dos latifúndios frente à ausência de uma reforma agrária séria há décadas vem empurrando as famílias de camponeses para as cidades grandes. Como faltam oportunidades dignas de trabalho, essa gente se une à periferia local. São milhões de pessoas vivendo nas encostas, em moradias improvisadas. Aí estão as vítimas mais sofridas dos atuais deslizamentos de terra – principal causa das mortes até o momento. Os programas de moradia popular não passam de peças publicitárias em campanhas eleitorais.

O sistema de saúde para socorrer as vítimas é precarizado, graças a uma política consciente de desmonte do SUS, o Sistema Único da Saúde. E para piorar, agora a crise econômica está sendo a desculpa para cortar ainda mais as já minguadas verbas para as áreas sociais.

Nos cem dias de chuva praticamente ininterrupta que antecederam o caos atual, nenhum esquema de emergência foi preparado para lidar com a situação que se avizinhava. Agora, os mesmos governantes responsáveis pelo absurdo em que chegamos se transfiguram nos “heróis da salvação” frente às câmeras.

Mas basta uma análise comparativa para perceber que nem a gravidade da situação atual serve para inverter a lógica até aqui colocada. As verbas do governo federal para combater as enchentes equivalem a 1% dos R$ 160 bilhões que foram recentemente entregues aos banqueiros pelo mesmo governo de uma só vez. Os equipamentos e o pessoal das Forças Armadas deslocadas para Santa Catarina nem se comparam à maquinaria de guerra e aos 1.200 homens do exército brasileiro enviados para manter a sangrenta ocupação do Haiti.

Portanto, diferentemente do que faz parecer a grande imprensa, as atuais enchentes não são uma mera fatalidade com origem em fenômenos climáticos. Trata-se de mais um triste capítulo da crise social, econômica, moral e ambiental que nos assola enquanto humanidade. Seus responsáveis estão sequinhos, em suas mansões e Palácios, calculando os próximos lucros que terão com a miséria alheia.

A comoção frente a esta terrível tragédia causa uma forte onda de solidariedade, com milhares de trabalhadores voluntários e doações vindas de diversas partes do país. Nós, do Sindicato dos Trabalhadores da UFSc, nos juntamos a essa corrente. Doamos cestas básicas e chamamos toda a sociedade civil a doar alimentos não perecíveis, roupas, cobertores, utensílios domésticos, medicamentos e materiais médicos, etc. Faremos o que está ao nosso alcance para ajudar as vítimas do flagelo.

Porém, nos podemos nos eximir de uma manifestação política centrada nos princípios éticos que nos sustentam. E, para que não se repitam tragédias como esta, nosso trabalho será ainda maior, e permanente: a luta pela transformação social profunda, socialista, pelo fim da exploração do homem pelo homem. Os sucessivos espetáculos de horror com que nos deparamos a cada dia são a prova definitiva da falência do modelo social capitalista para resolver os dilemas profundos e até as questões mais básicas da humanidade.

Coordenação do Sintufsc – Sindicato de Luta

Veja também