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Reitorias convocam a polícia para reprimir a comunidade acadêmica

A cena vem se repetindo em várias universidades federais. Com maior ou menor grau de violência, reitorias cooptadas pelo governo federal recorrem ao autoritarismo e até violência policial para levar adiante o projeto de reforma universitária iniciada no governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A cena vem se repetindo em várias universidades federais. Com maior ou menor grau de violência, reitorias cooptadas pelo governo federal recorrem ao autoritarismo e até violência policial para levar adiante o projeto de reforma universitária iniciada no governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A bola da vez é o Programa de Apoios a Planos de Reestruturação das Universidades Públicas – REUNI, que prevê a expansão sem qualidade das universidades públicas.

Nas universidades particulares, as pautas de atrito entre comunidade acadêmica e reitorias são outras, mas mantêm o caráter reivindicatório de mais qualidade na educação superior e melhores condições de acesso para estudantes pobres. O modus operandi utilizado pelas administrações superiores para calar os manifestantes que contestam a lógica de mercado que tomou conta das universidades privadas é o mesmo utilizado para evitar as vozes dissonantes das públicas: a repressão.

Como em 1968

Na calada do feriado de 15 de novembro, dia em que se comemora a Proclamação da República, a tropa de choque da Polícia Federal – PF expulsou da reitoria da Universidade Federal da Bahia – UFBA, a base de bombas de efeito moral e sprays de pimenta, um grupo de cerca de 60 estudantes que ocupava o prédio há 46 dias, em protesto contra o REUNI. Quatro estudantes foram presos. Pelo menos 20 afirmaram ter sofrido agressões durante a operação policial

Quatro dia antes, os 150 estudantes e docentes que ocupavam a reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP foram acordados durante a madrugada. Às 2:30 horas, a tropa de choque da Polícia Militar os expulsou do prédio de forma violenta e anti-democrática. Os manifestantes ocupavam a reitoria há quatro dias, em protesto contra o “Redesenho Institucional” da universidade, que previa demissão de professores, corte do número de bolsas, centralização das decisões e privilégio dos cursos mercadológicos.

Na Universidade Federal Fluminense – UFF, mais de 500 estudantes, professores e técnicos se reuniram no cinema para discutir o REUNI, no dia 23 de outubro. O reitor, sentindo o clima desfavorável à aprovação do projeto, mandou suspender a reunião e encaminhar a adesão ao programa governamental por vias administrativas. Os estudantes que, revoltados, iniciaram uma ocupação da reitoria, também foram expulsos de lá, no dia seguinte, com auxílio da força policial.

Na Universidade Federal de Juiz de Fora, no dia 25 de outubro, duzentos homens da tropa de choque da Polícia Militar – PM cercaram o prédio do Museu de Arte Murilo Mendes – MAMM para garantir que o Conselho Universitário aprovasse o REUNI na instituição. No interior do local, mais dois ônibus lotados com policiais coibiam os manifestantes de utilizar quaisquer meios democráticos para tentar promover o debate. Muitos conselheiros acabaram abandonando a reunião. “Saímos em repúdio à falta de democracia, a uma reunião cercada pela PM, que não garantiu nosso direito de fala”, explicou a ex-reitoria, Margarida Salomão.

As ocupações ocorreram também na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), onde o reitor remanejou a reunião para debater o REUNIR para uma base militar, com medo de que a comunidade docente conseguisse obstruir a votação. Na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, histórias de arbitrariedade e truculência se repetiram. Na UFSC, particularmente, a comunidade acadêmica saiu vitoriosa e fortalecida: a administração superior da UFSC cancelou a adesão da instituição ao REUNI.

Na Universidade Federal do Estado de São Paulo – UNIFESP, o choque entre estudantes e a tropa de choque da Polícia Militar também deixou feridos. Os estudantes responderam com greve geral a mais esse acinte à democracia. Também ocorrem ocupações e manifestações nos prédios das reitorias da Universidade Federal do Paraná – UFPR, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e da Universidade Federal de Goiás – UFG. Nesta última, o movimento de resistência ao REUNI foi liderado pelos docentes da Faculdade de Educação.

Senhor das armas

Na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, os estudantes que também protestavam contra o REUNI desocuparam pacificamente a reitoria, no dia 14 de novembro, após serem notificados do mandado de reintegração de posse obtido pela reitoria. Em contrapartida, a administração superior anunciou que, para evitar novas “invasões”, lançará mão de seguranças armados e 26 câmeras de monitoramento no campus.

Desde o dia da desocupação, oito homens armados fazem a segurança do prédio. Como se não bastasse, a reitoria já anunciou que o Grupo Tático Operacional – GTO da UFPE passará a usar armas que disparam tiros paralisantes. O GTO, hoje com 30 homens, receberá reforço de mais 44 servidores, que já estão passando por treinamento de tiro ao alvo.

Democracia em perigo

Evson Malaquias, professor da UFPE e diretor de Divulgação e Imprensa do ANDES-SN, considera "lamentável o caminho que as instituições públicas estão seguindo, inclusive as IFES e entidades como ANDIFES, que divulgou nota de apoio a esses reitores". "O uso da violência física pela força policial – PM, PF e segurança patrimonial – e simbólica, como a utilização da imprensa para fazer campanha contra as ocupações e protestos, e outros métodos criticáveis (conselheiros entrando por porta de fundos, assinando atas do Conselho antes da reunião acontecer), recorrendo a inquéritos administrativos como forma de intimidação e perseguição, são inaceitáveis. Os reitores abusaram da autoridade ao utilizarem esse aparato de repressão e, certamente, estão articulados com o governo. A sociedade civil democrática tem que se levantar contra essa maneira de administrar por meio de práticas que sinalizam para a fascistização da política", afirma.

Fonte: Najla Passos, assessora do ANDES-SN 

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