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Mata da Restinga sob ameaça: o embate entre preservação ambiental e expansão imobiliária

Localizada no bairro Restinga, na zona sul de Porto Alegre, a Mata da Restinga é uma formação vegetal típica da Mata Atlântica — bioma que concentra o maior número de espécies ameaçadas e extintas do Brasil, conforme aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na pesquisa “Contas de ecossistemas: espécies ameaçadas de extinção no Brasil”, atualizada em maio de 2025.

Uma audiência pública para apresentar o projeto Alphaville II foi realizada pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), no dia 24 de abril, praticamente um ano após a tragédia causada pela enchente de maio que atingiu Porto Alegre. O empreendimento prevê o desmatamento de 42% da área de restinga — cerca de 180 hectares — para a construção do maior loteamento residencial da história da capital, com 431 hectares de extensão total. A audiência ocorreu na Paróquia da Esplanada, no bairro Restinga.

Karol Rosa de Almeida, arquiteta popular e urbanista com forte atuação na Restinga, bairro onde nasceu, cresceu e ainda reside, destaca a insuficiente divulgação da audiência pública, que reuniu cerca de 50 moradores. O número é considerado baixo diante da relevância da região, que concentra 4,69% da população total de Porto Alegre, conforme o Censo 2022. Ela relata que soube da audiência apenas no mesmo dia, por meio de uma liderança comunitária.

No dia seguinte, Karol publicou em suas redes sociais um vídeo denunciando e contextualizando o projeto, que prevê a construção de um empreendimento de alto padrão ao lado da maior periferia da cidade. “Fiquei muito indignada. Os empreendedores dizem que vão preservar 58% da área e que isso vai gerar mais empregos, mas isso significa que 42% será suprimida”, afirma. Além disso, criou o perfil SOS Mata da Restinga no Instagram (@sos.matadarestinga) e lançou o abaixo-assinado em defesa da área, que reúne, atualmente, mais de 2.900 assinaturas.

Impactos Ambientais

O professor de geografia Felipe de Sousa Gonçalves, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Restinga, faz uma análise crítica sobre o planejamento urbano e ambiental, áreas em que atua. Ele destaca que Porto Alegre é uma das poucas capitais do Brasil localizadas em uma zona de transição entre dois biomas: Mata Atlântica e Pampa. “Então, não é somente a Mata Atlântica que a gente vai estar agredindo quando tem um empreendimento desse porte”, ressalta.

Segundo o professor Felipe, a retirada da vegetação nativa e o aumento das áreas pavimentadas provocam alterações no microclima local. Ele também aponta os impactos hidrológicos causados especialmente sobre o Arroio do Salso, principal bacia hidrográfica de Porto Alegre. Com o avanço do desmatamento, há um aumento do assoreamento, que intensifica a erosão do solo — e esse material acaba sendo carregado para os dutos e bueiros, chegando até o Guaíba.

Além disso, ele destaca a contradição nas ações do poder público em relação ao manejo ambiental: “Então, a gente vê aí o próprio prefeito solicitando o tal do desassoreamento do Guaíba, mas, né? A gente vê que a prefeitura tá aparentemente dando acordo a um novo empreendimento que vai complicar ainda mais”, afirma.

Entre outras consequências, Felipe aponta ainda a devastação visual da paisagem e a proliferação de doenças, já que os vetores, ao perderem seus habitats naturais devido às obras, migram para áreas urbanas.

“Veja que a gente tem um impacto ambiental significativo, que começa com o que parece ser uma simples retirada de vegetação, mas que interfere no microclima, no relevo, na hidrografia, no bem-estar e na saúde das pessoas”, alerta o professor Felipe. “E tudo isso, para quem? Quem são os investidores? Quem é que vai morar nesse lugar?”

Ele questiona o sentido social de empreendimentos como esse: “A gente vê grandes empreendimentos, grandes em valor financeiro, sendo aprovados em Porto Alegre. Mas para quem? Vale a pena suprimir a vegetação de uma área inteira para construir casas que talvez nem sejam ocupadas, ou que sejam usadas só em determinados períodos do ano?”

Desigualdade estrutural

Um dos principais argumentos utilizados pela empresa responsável pelo empreendimento de luxo para defender a aprovação do projeto é a geração de empregos. A previsão é de que, durante a fase de construção, sejam criados 994 empregos diretos. Já na fase de operação, estima-se a geração de 8.452 empregos indiretos. No entanto, a própria projeção da empresa indica que a ocupação de 85% do empreendimento deverá levar cerca de 25 anos para se concretizar.

O professor reconhece que parte da população vê o empreendimento com bons olhos, especialmente diante dessa promessa de empregabilidade. Para ele, essa aceitação tem raízes históricas e culturais profundas. “Muitas vezes, por falta de conhecimento ou de uma base escolar que permita uma análise crítica, as pessoas enxergam esse tipo de obra como uma oportunidade. E isso tem a ver com a ideia de que construção civil, asfalto e prédios são sinônimos de progresso. É uma narrativa antiga no Brasil.”

Felipe destaca que há um imaginário coletivo que ainda enxerga a natureza como entrave ao desenvolvimento. “A natureza é vista como algo que atrapalha. A estrada, o prédio, são sinal de avanço. E isso se reproduz até hoje.”

O professor também aponta a desigualdade estrutural no acesso a serviços e oportunidades como fator que alimenta a aceitação de projetos como o Alphaville II. “As pessoas perguntam: por que a Restinga, sendo o maior bairro do Rio Grande do Sul, é tão empobrecida? Porque falta indústria, falta emprego. Muita gente precisa sair do bairro para trabalhar. Então, quando aparece uma possibilidade de trabalho perto de casa, por que seria contra?”

Apesar disso, há desconfiança mesmo entre os moradores que enxergam o empreendimento com otimismo. “A Restinga ainda é estigmatizada. Boa parte da população de Porto Alegre nem conhece o bairro. Então, por que agora querem construir um condomínio fechado aqui do lado? Essa desconfiança é legítima”, analisa.

Segundo Felipe, há pelo menos três grupos distintos na comunidade: os que veem o projeto como uma oportunidade, os que o encaram com desconfiança e os que lutam ativamente contra sua implementação. Esse último grupo é formado por moradores que conquistaram, por exemplo, a instalação do Hospital da Restinga e do campus do Instituto Federal.

Contudo, ele ressalta que a correlação de forças está hoje desequilibrada a favor do mercado imobiliário. “A cidade está completamente organizada para que esses empreendimentos ocorram. Há um aparelhamento do Estado — da prefeitura, da Câmara de Vereadores, do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano — que favorece a aprovação desses projetos. Então, como o povo da Restinga vai conseguir barrar algo assim? A chance de isso passar é muito grande.”

O papel da educação na conscientização crítica

“Por outro lado, tem uma coisa muito forte que é o controle social do poder público. E a gente só consegue ter esse controle social efetivo envolvendo as pessoas, os cidadãos, nas decisões relacionadas ao plano diretor, às políticas de saúde, educação, segurança e ações afirmativas”, explica.

Para o professor do IFRS Restinga, a participação dos estudantes e da população local nos debates sobre o uso, a preservação e o futuro do território onde vivem é fundamental. Foto: IFRS Restinga

Ele reforça que, ao incluir a comunidade nessas discussões, o controle social se fortalece, diminuindo a margem para decisões arbitrárias e refletindo diretamente nas representações legislativas. “Envolver estudantes, a população, pessoas com conhecimento — que entendem, por exemplo, o impacto da retirada da vegetação — é fundamental para evitar que sejam enganados com promessas, como a de geração de empregos”, destaca.

Felipe exemplifica sua visão com um exemplo utilizado em aula: “Quando uma espécie animal ou vegetal entra em extinção, não é só aquele ser que está em risco, é toda uma cadeia alimentar que é afetada. Por exemplo, um sapo pode ser alimento para outros animais e, ao mesmo tempo, controlar pragas ao consumir insetos. Uma simples extinção gera um desequilíbrio imenso no ecossistema.”

Segundo ele, levar esse conhecimento para os estudantes, suas famílias e demais moradores estimula o espírito coletivo e a conscientização crítica. “Assim, a comunidade estará mais preparada para questionar projetos e reivindicar seus direitos, sem se deixar enganar por promessas vazias.”

Mobilização popular e incidência política

No dia 30 de abril deste ano, os moradores da Restinga, junto de entidades e cidadãos comprometidos com a justiça socioambiental, apresentaram a moção de repúdio contra a construção do Alphaville II em área de preservação, a qual foi aprovada na plenária da 7ª Conferência Municipal das Cidades. Posteriormente, a moção foi encaminhada para a 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, também sendo aprovada.

No último dia 26 de junho, o movimento SOS Mata da Restinga participou da Audiência Pública sobre a importância da preservação das florestas urbanas no enfrentamento à emergência climática, que ocorreu no Plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. A audiência foi organizada pelo mandato do Deputado Estadual Matheus Gomes.

Karol fez parte da mesa, junto com representantes da Floresta do Sabará, Floresta da Lomba e do Mato do Júlio. Foto: Arquivo Pessoal

“É inconcebível esse projeto passar dentro do contexto que a gente tá vivendo de enchentes, de emergência climática e de tudo o que isso envolve”, afirma a arquiteta popular.

Mesmo após as enchentes de maio, Porto Alegre segue discutindo empreendimentos em áreas ecologicamente sensíveis. O caso Alphaville II evidencia que é preciso alinhar políticas públicas de urbanismo às lições deixadas pelas crises climáticas.

Reportagem da ASSUFRGS Sindicato, escrita por Mariana Reyes, estagiária na imprensa.