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Artigo – Mateus Aleluia e Paulo Freire: dois luzeiros a sinalizar os caminhos

César Rolim, Liliane Giordani e Marco Mello (*)

Mateus Aleluia no Entreluzeiros 

Na noite da terça-feira (16), o Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, se converteu em um espaço ritualístico de celebração ancestral conduzida pela voz grave e presença encantadora de Mateus Aleluia, 81 anos, filho de Cachoeira, no Recôncavo baiano, um dos grandes mestres da música brasileira e referência essencial das tradições e da religiosidade afro-brasileira. 

O cantor, compositor e instrumentista, integrante histórico de Os Tincoãs, inaugurou a série Entreluzeiros, do Projeto Unimúsica 2025/2026, em um espetáculo de intimidade, devoção, profundidade e potência que acalentou o coração das mais de 1100 pessoas presentes. Em sua companhia no palco esteve o talentoso pesquisador, educador popular e percussionista uruguaio-gaúcho Mimmo Ferreira. 

Não foi apenas uma noite absolutamente memorável, com a presença de um mestre talentoso, terno e sábio. Vigoroso nas suas convicções de afirmação da dignidade humana e da luta antirracista. Foi uma aula aberta de um extraordinário educador, pesquisador inquieto da cultura popular, em uma Universidade Pública que aos poucos busca a democratização plena de seus espaços de trabalho e diálogos permanentes com a comunidade acadêmica através, especialmente, de sua Extensão Universitária. 

Paulo Freire presente sempre! 

Na sexta-feira, dia 19 de setembro, lembramos outro educador, o maior entre nós, que completaria 104 anos de idade: Paulo Freire, o Patrono da Educação Brasileira. Freire continua vivo em cada sala de aula, em cada movimento popular e na luta de educadoras(es) que se movem na direção de uma educação libertadora. Sua pedagogia revolucionária, marcada pelo diálogo, pela criticidade e pelo horizonte emancipatório rompeu com a ideia de educação bancária e colocou educadoras e educandos como sujeitos ativos da transformação social. 

Mais de um século após seu nascimento, sua obra continua influência decisiva para quem defende a escola pública, democrática e popular. Lembrar Paulo Freire (1921-1997), portanto, é manter viva a luta por uma educação pública de qualidade, pelo respeito às trabalhadoras e trabalhadores da educação e pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 

Na obra de Paulo Freire, e em nós, a amizade no ensinar e aprender consiste em estar encantada(o) e juntas(os). Uma pedagogia que promove o conceito de comunidades de aprendizagem pressupõe diálogos solidários com a comunidade, diálogos que se entrecruzam nos debates políticos em movimentos de cidadania, do conhecimento cultural, significando o conhecimento escolarizado. Compreender como ato político e de cidadania estar na escola é muito mais do que frequentar suas turmas, avançar no conteúdo e receber o diploma de conclusão. Estar na escola é cidadania na medida em que o texto da escola dialogue criticamente com propostas de gabinetes e gerenciamentos das políticas oficiais. Como lembra Freire (2000), as diferentes formas de opressão e de dominação existentes em um mundo apartado por políticas neoliberais e excludentes não retiram o direito e o dever de homens e mulheres mudarem o mundo, através da rigorosidade da análise da sociedade. 

O propósito da pedagogia não deveria ser o consenso que monopoliza, o entendimento que cala. Paulo Freire afirma que o propósito emancipatório da pedagogia é romper com o ‘embrutecimento’ do pensar, é divergir, é viver a diversidade. Pensar os currículos possíveis na educação, que privilegiem os projetos de interesse, planejamento, autonomia e aprendizagens em rede, pode favorecer a produção movente de conhecimento e subjetivação. Tantos modos de pensar os currículos, modos de pensar diferente o currículo. Propor ações de extensão e pesquisa entre escola e universidade pelas rodas freirianas pode promover mecanismos de formação constante, tanto para educadoras(es) quanto para educandas(os). 

Dois luzeiros 

Esses dois nordestinos, Mateus Aleluia (BA) e Paulo Freire (PE) guardam uma conexão de proximidade a partir do qual é possível estabelecer um diálogo fecundo, ainda que tal relação não se estabeleça de maneira tão direta ou declarada. São ambos dois luzeiros fundamentais, profundamente comprometidos com a valorização da cultura e saberes populares, sujeitos de grande sapiência, frutos também de muito estudo sistematizado. Neles se percebe concepções da arte e da educação indissociáveis da dimensão política, partejadores de novas sensibilidades e novos mundos. Tanto em Freire como em Aleluia percebe-se uma vívida e transbordante orientação de suas andarilhagens pela centralidade do diálogo, pela curiosidade epistêmica e pela esperança utópica, entendida como práxis transformadora.  

Paulo Freire, em sua Pedagogia do Oprimido, afirma a importância de uma educação que promova um processo dialógico, capaz de reconhecer e legitimar os saberes populares e as experiências históricas de educandas(os): “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1987, p. 68). 

De forma semelhante, Mateus Aleluia utiliza a música como veículo de afirmação da ancestralidade africana no Brasil, resgatando tradições banto e jeje-nagô em diálogo com a religiosidade afro-brasileira. Nesse sentido, a música de Aleluia pode ser compreendida como prática educativa, que promove a conscientização e fortalece identidades historicamente marginalizadas. 

Mateus Aleluia (2017) afirma que “por mais afro que sejamos, temos muito da cultura barroca. Nos navios negreiros, viemos embalados tanto pelos nossos cânticos quanto pelos dos jesuítas. Influenciamos e fomos influenciados”. Lembra também que: “o afrobarroco é isso que nós somos, a junção de duas culturas, acolhidas pela cultura indígena brasileira. O AfroBarroco assim poderia traduzir-se na Cultura Cabocla.[…] E aqui no Brasil esse Afrobarroco é sustentado na cultura de quem? Do autóctone, do dono da terra que é o indígena” (ALELUIA, 2021, p. 56). 

Outro ponto de convergência entre Freire e Aleluia está na dimensão da esperança. Freire cunhou o verbo esperançar como ação crítica diante da realidade, rejeitando a passividade e apostando na transformação coletiva. Freire lembra que “a esperança é necessária mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da herança crítica, como o peixe necessita da água despoluída” (FREIRE, 1992, p. 5). 

Aleluia, por sua vez, traduz essa perspectiva em sua produção musical e discursiva, concebendo a ancestralidade não apenas como memória, mas como horizonte de futuro. Em entrevista, o artista afirmou: “Minha música é espiritualidade, é a busca de dignidade do ser humano através da ancestralidade africana que nos habita” (ALELUIA, 2017). 

Assim, Freire e Aleluia compreendem seus fazeres como gestos políticos. Para o educador pernambucano, educar é sempre um ato político, na medida em que implica escolhas éticas e sociais. Para o artista baiano, cantar é também resistir, afirmando a cultura afro-brasileira ou afro-barroca sempre com uma perspectiva histórica, como lembra Aleluia (2021): “a nossa vinda para cá, esse nosso esquecimento, essa nossa lembrança, isso é muito importante para que a gente nunca esqueça a nossa vinda d’África, para que por mais que nós envelheçamos e vamos esquecer coisas recentes, mas nunca vamos esquecer as coisas passadas que nos referendam e que realmente nos alimentam”. 

Foto: Divulgação

Para ir além: Mateus Aleluia e Os Tincoãs 

Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir ou ouvir o trabalho de Mateus Aleluia, que tem 60 anos de carreira e viveu cerca de vinte anos em Angola,  recomendamos inicialmente buscar a discografia (4 álbuns) do célebre grupo vocal e percussivo Os Tincoãs, de qual Mateus Aleluia foi integrante, em especial o Canto Coral Afrobrasileiro (1983/2023), recuperado de uma gravação original por Aleluia e remasterizado pelo talentoso Tadeu Mascarenhas. Mateus Aleluia lembra que esse trabalho iniciou em meados de 1963 tentando fazer releituras dos cânticos dos candomblés, das umbandas, pois “essas coisas todas, as cantigas de roda que eram dos momentos de folguedos que era quando não estávamos no sacro, que nós estávamos no supostamente profano. Dentro da cultura afro não existe profano e nem sacro, a vida se mistura. A vida é uma vida, essa coisa de sacro e profano já foi uma imposição de uma colonização religiosa para a gente”. (Mateus Aleluia in Lucas Martins – Amigos do Axé, 2018). 

Mateus Aleluia tem cinco álbuns gravados: Cinco sentidos (2009), Fogueira doce (2017), Olorum (2020), Afrocanto das nações (2025) e o recente No amor não mando (2025), o mais livre de seus trabalhos, além de participações em álbuns de diversos músicos brasileiro. Todas as produções estão disponíveis nas plataformas digitais.  

Outra oportunidade de conhecer mais sobre Aleluia que, aliás, aniversaria no próximo dia 25, é assistir ao documentário Aleluia: o canto infinito dos Tincoãs, (2020), dirigido pela cineasta Tennile Bezerra, que também foi projetado em sessão na Sala Redenção (Campus Central da UFRGS) no início da semana passada, com a presença da diretora. O filme recupera imagens e histórias preciosas de Os Tincoãs, e destaca Mateus Aleluia no processo de elaboração de seu segundo disco  em sua jornada de autoconhecimento, de valorização de sua ancestralidade e raízes africanas e afrobrasileiras, além de revelar seu profundo comprometimento com uma ética e estética da libertação, como poeta, músico e intelectual extraordinário que é.  

Lendo o Mundo com Paulo Freire 

Os primórdios das experiências com a educação de adultos de Paulo Freire, sobretudo no Nordeste brasileiro, tiveram em 2025 um registro à altura, através do documentário Lendo o mundo, vencedor da categoria no Festival de Cinema de Gramado. O filme, de 70 minutos, dirigido por Catherine Murphy e Iris de Oliveira, recupera através de registros da época e entrevistas com alfabetizados, educadores e pesquisadores, uma experiência piloto de alfabetização de adultos, realizada em 1963, em um pequeno município do Rio Grande do Norte, Angicos. Nela, foi aplicada uma pioneira metodologia de alfabetização a partir da investigação da realidade local, seus problemas e universo vocabular, que ficou conhecida como “Aprender a ler e escrever em 40 horas”, que projetou Paulo Freire nacionalmente. Apesar do sucesso da iniciativa e a meta de sua ampliação no Governo de João Goulart, o golpe empresarial-militar de 1964 cortaria na raiz a iniciativa, levando, entre outros, Paulo Freire ao um exílio por 16 longos anos.  

O filme também conta com uma trilha sonora composta por expoentes da cultura nordestina, como Chico César, Bia Ferreira, Cláudio Rabeca e Quinteto da Paraíba (Trailler disponivel aqui).

Freire e Aleluia fundamentais 

Nesta semana, que marcou também o início da primavera, nossa saudação, com afeto e imensa admiração, a esses dois mestres, Mateus Aleluia e Paulo Freire, que habitam em nossos corações e nos convidam, com sensibilidade e firmeza, para estarmos juntas(os) e em movimento, no reencantamento do mundo! 

(*) César Rolim é professor de História da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA) e Técnico-Administrativo em Educação na UFRGS; Liliane Giordani é professora da Faculdade de Educação da UFRGS; e Marco Mello é historiador e professor da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA).


Referências:
ALELUIA, M. SIQUEIRA, S. África do lado de cá: diálogos entre Angola e Recôncavo Baiano. Salvador, 2021.
ALELUIA, Mateus. Fogueira Doce. Entrevista concedida ao jornal O Globo, Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2017. Disponível em: https://encurtador.com.br/ujR8P .  Acesso em: 19 setembro de 2025.
ALELUIA, Mateus. Disponível em: https://mateusaleluia.com.br/ Acesso em: 19 de setembro de 2025.
ALELUIA, Mateus. Entrevista para GP-PensamentoNegroContemporâneo UFSB (16 de novembro de 2020) – Mateus Aleluia – Música, ancestralidade e letramento. Disponível em: https://sl1nk.com/fAv5b . Acesso em 19 de setembro de 2025.
FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação – cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LIMA, José Carlos. Os Tincoãs e a ancestralidade afro-brasileira na música popular. Salvador: EDUFBA, 2019.
MARTINS, Lucas. Amigos do Axé – Entrevista em 10 de setembro de 2018 – Pai Paulinho e Mateus Aleluia. Disponível em: https://shre.ink/SLHd. Acesso em 19 de setembro de 2025.