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Palestra com Nildo Ouriques debate impactos da Reforma Administrativa e contexto do capitalismo no Brasil

Na tarde desta sexta-feira (10), a sede central da ASSUFRGS Sindicato recebeu o economista e professor Nildo Ouriques para a palestra “Impactos da Reforma Administrativa para o serviço público brasileiro”. O encontro, realizado das 15h às 17h, reuniu servidoras e servidores interessados em compreender os efeitos da proposta de Reforma Administrativa e o contexto econômico que a sustenta, sendo também transmitida ao vivo pelo Youtube da ASSUFRGS.

Logo no início de sua fala, Nildo Ouriques destacou que o tema da Reforma Administrativa “aparece porque é interesse do governo”. Segundo ele, o discurso oficial de que a reforma busca combater os altos salários do Judiciário foi utilizado apenas como justificativa para fragilizar o serviço público e atingir os trabalhadores.

A razão para a reforma nunca foi o combate aos altos salários, mas sim a reconfiguração do Estado para atender aos interesses do capital”, afirmou.

O professor alertou que, caso a Reforma seja aprovada, representará uma profunda deterioração do serviço público e das carreiras, com consequências diretas para a população que depende das políticas públicas.

Compuseram a mesa o coordenador de Divulgação, Imprensa e Educação Política e Sindical da ASSUFRGS, Devanir da Rosa Weber, e o servidor técnico-administrativo do CPD/UFRGS, Caciano Machado | Imagem: Imprensa ASSUFRGS

Transformações do capitalismo e o papel do Estado

O economista contextualizou a proposta dentro de um movimento mais amplo de transformação do capitalismo dependente brasileiro, que, segundo ele, vem se intensificando desde a década de 1980. Entre os fatores que moldaram esse cenário, destacou a superexploração da força de trabalho, o endividamento do Estado em dólar e a associação crescente com empresas multinacionais.

Nildo citou o pensador Ruy Mauro Marini, autor de Subdesenvolvimento e Revolução, para reforçar que o desenvolvimento capitalista na América Latina deve ser entendido como parte do desenvolvimento global do sistema capitalista. Ele lembrou ainda que, no Brasil, a expansão da fronteira agrícola e a concentração de terras, evidenciada no Censo Agro de 2017, ocorreram às custas do meio ambiente e do aumento das desigualdades.

O Plano Real foi resultado da incapacidade da burguesia industrial brasileira de formular um projeto nacional capaz de competir com a produção dos Estados Unidos e do Leste Asiático”, explicou.

Ainda segundo Nildo, vivemos um capitalismo que não depende mais de uma grande base de trabalhadores, o que se expressa no avanço tecnológico e na precarização das relações de trabalho.

Na análise do economista, a dívida pública tornou-se o coração da burguesia brasileira, reunindo interesses agrários, comerciais, industriais e bancários. Ele defendeu que a lógica da austeridade fiscal e dos cortes de investimentos é funcional ao capital e inviabiliza políticas públicas essenciais.

A Reforma Administrativa resulta em um país sem política de educação, sem saúde e sem controle sobre o próprio território. Estamos assistindo à deterioração das instituições e das condições de vida à luz do dia, esse é o movimento natural do desenvolvimento capitalista”, afirmou.

O evento desta tarde reafirma o compromisso da ASSUFRGS em promover espaços de formação e resistência diante das ameaças aos direitos dos servidores e à estrutura do Estado brasileiro. Imagem: Imprensa ASSUFRGS

Ao encerrar sua palestra, ele ressaltou a indissociabilidade entre Estado e economia no capitalismo contemporâneo:

Se alguém quiser separar o Estado da economia, eu topo na hora, porque o capitalismo cairia junto. Quando o Estado estatiza, como nas experiências da Eletrobras e da Petrobras, não é pensando nos brasileiros, mas na expansão do capital.”

Os sindicatos precisam resistir

A palestra de Nildo Ouriques provocou reflexões importantes sobre o papel do serviço público e a necessidade de reconstruir o pensamento crítico e a formação política dentro do sindicalismo. Para o economista, um dos grandes desafios das últimas décadas foi a perda de densidade teórica e de capacidade de formulação política por parte dos movimentos sindicais.

O sindicalismo, nos últimos 20 anos, perdeu qualidade teórica e capacidade política. Não desprezem a teoria, pois nada pode ser mais prejudicial do que isso”, alertou.

O encontro encerrou-se com debates e manifestações dos presentes, acerca do efeito das bases na história brasileira recente e da política de formação voltada à classe trabalhadora capaz de romper com o referencial sistêmico atual.


Nildo Domingos Ouriques é economista e professor brasileiro. Foi presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa Catarina. Ao longo de sua carreira acadêmica, lecionou em instituições de todo o mundo, incluindo a Universidade Nacional de Tucumán na Argentina, a Universidade de Pádua na Itália, a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a Universidade Bolivariana da Venezuela e a Universidade Simón Bolívar em Quito, Equador.