Artigo – Por um Novembro Negro todos os dias: Reparação é Poder
Assinado por Ítalo Ariel Pereira Guerreiro
O que conhecemos como Novembro Negro nasce como marco político forjado pelos Movimentos Negros brasileiros em resposta à falsa narrativa de democracia racial que sustentou o imaginário nacional ao longo do século XX. A escolha do dia 20 de novembro, pensada pelo Grupo Palmares aqui em Porto Alegre e em referência à morte de Zumbi, não é mero simbolismo, mas um gesto de reorganização da memória histórica brasileira. Ao deslocar o eixo de comemoração do 13 de maio — data “d’Abolição” — o movimento afirma que a História da negritude não pode ser contada a partir da benevolência do Estado brasileiro ou de suas classes dirigentes, mas de sua própria resistência. Novembro é, portanto, tempo de insurgência contra o esquecimento, tempo de retomada de uma História que o Brasil tenta silenciar, mas que persiste como fundamento imperante e contínuo da nação.
A senzala não foi apenas espaço de dor, foi também espaço de novas epistemologias, religiosidades, línguas híbridas, afetos e estratégias coletivas de sobrevivência. Quilombos, irmandades, terreiros, rodas de capoeira, redes de cura e técnicas de plantio não sobreviveram apesar da escravidão — sobreviveram contra ela.”
A trajetória da população negra no Brasil foi, por séculos, narrada como história de dominação e submissão. Contudo, as/os intelectuais e militantes negras/os e a historiografia comprometida com a humanização de pessoas negras, demonstram que, desde o período escravista, a vida das/dos de cor foi atravessada não apenas pela violência, mas também pela invenção de formas próprias de existir, proteger-se, transmitir saberes, criar laços comunitários e reconstruir o mundo. A senzala não foi apenas espaço de dor, foi também espaço de novas epistemologias, religiosidades, línguas híbridas, afetos e estratégias coletivas de sobrevivência. Quilombos, irmandades, terreiros, rodas de capoeira, redes de cura e técnicas de plantio não sobreviveram apesar da escravidão — sobreviveram contra ela.
Os Quilombos, em especial, não eram meros refúgios, mas projetos distintos de sociedade, como demonstram os mocambos de Palmares e a guerrilha liderada por Manoel Padeiro. Palmares, o mais conhecido, destacava-se por sua estrutura política, sua economia coletiva, seus pactos territoriais, seu sistema de justiça e sua organização militar, caracterizando a primeira forma de governo autônomo negro nas Américas. Existiu por quase um século não porque se isolou, mas porque negociou, guerreou, produziu e organizou-se de modo soberano. O Quilombo, enquanto experiência social, política e espiritual, não é passado: é uma proposta de futuro. Foi isso que Abdias do Nascimento chamou de “quilombismo”, isto é, um modelo de sociedade fundada na coletividade, na dignidade humana, na economia solidária e na democracia racial real — não retórica.
Essas formas de sociabilidade negras seguiram se reinventando após 1888. Irmandades religiosas negras, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, funcionaram como espaços de proteção, articulação comunitária, alfabetização, trabalho coletivo e organização política. Terreiros de candomblé e umbanda preservaram cosmologias africanas, formas de cura, redes econômicas e pedagogias comunitárias que mantêm vivo um sistema civilizatório próprio. Clubes negros, escolas de samba, blocos afro, rodas de capoeira, jornais da Imprensa Negra e associações urbanas foram centros de memória, arte, educação política e geração de renda. Longe de serem espaços “folclóricos”, são instituições negras que disputaram território social, cultural, econômico e simbólico dentro de uma sociedade que tentou apagá-las.
No entanto, a abolição não significou cidadania. A população negra foi lançada à marginalidade jurídica, territorial, educacional e econômica. Enquanto o Estado financiava imigração europeia e políticas raciais de branqueamento, a população recém-liberta foi impedida de acessar terra, escola, trabalho formal e direitos políticos. Foram lançadas às bases do chamado racismo estrutural: a organização sistemática da vida social brasileira para que o povo negro fosse mantido na base da pirâmide econômica, social e simbólica. Essa estrutura permanece operante no século XXI, como comprovam os dados de violência policial e de gênero, encarceramento, mortalidade infantil, evasão escolar e desigualdade de renda.
A presença da população negra nas universidades brasileiras é parte dessa história. A exclusão racial do ensino superior foi, durante séculos, um dos pilares da manutenção da hierarquia social. Somente com as lutas organizadas, especialmente a partir dos anos 1990, e com a criação das políticas de Ações Afirmativas, a universidade começou a deixar de ser um espaço quase exclusivamente branco. A entrada de estudantes, pesquisadores e técnicos negros não é concessão, mas conquista histórica de luta — e ainda assim, a permanência, a progressão funcional, a produção acadêmica negra e a ocupação de cargos decisórios continuam atravessadas por barreiras raciais. Os coletivos negros universitários, os NEABIs, as redes de pesquisa afrodiaspóricas e os movimentos culturais nos campi são, hoje, extensão contemporânea do quilombo: formas de produzir conhecimento, acolhimento, organização política e rupturas com a colonialidade do saber.
É neste contexto que se insere o papel da ASSUFRGS. Enquanto sindicato que representa trabalhadoras e trabalhadores das Instituições Federais de Ensino, sua responsabilidade não é apenas trabalhista, mas social e histórica. Lutar contra o racismo não é tarefa opcional: é parte constitutiva de qualquer projeto de classe que não reproduza a lógica da branquitude como norma. A defesa dos direitos do povo negro deve atravessar a pauta sindical, a política institucional, a comunicação, as campanhas, os espaços de formação e a própria estrutura interna da entidade. Um sindicato antirracista não é aquele que apenas apoia o combate ao racismo, mas aquele que compreende que a luta das pessoas negras é a própria luta de classes.
Do mesmo modo, é fundamental reconhecer o protagonismo das pessoas negras que constroem cotidianamente as IFEs: trabalhadoras/es terceirizadas, servidoras/as técnicas e docentes, e estudantes. Diariamente executam as mais variadas atividades, garantindo excelência. Sem esse trabalho não há universidade e institutos federais socialmente referenciados e de qualidade; sem a luta negra, não há democracia interna; sem a produção intelectual negra, não há descolonização do saber. Portanto, a luta antirracista não é externa à universidade, ela é condição de sua existência justa.
É nesse ponto que o fundamental aparece: a Reparação. Reparação não é favor, não é caridade, não é inclusão tardia: é devolução histórica, política, econômica e simbólica daquilo que foi negado por séculos. Reparação não pode ser só integração, é reorganização do poder. Reparação como poder significa que o povo negro não deve apenas ocupar espaços dentro da estrutura já existente, mas disputar a forma como a estrutura é pensada, governada e distribuída. Não se trata de “ter negros na política”, mas de transformar a política. Não se trata de “ter negros na universidade”, mas de destruir a universidade racista e criar outra, plural, afrodiaspórica, popular. Não se trata de representar a população negra, mas de restituir-lhe soberania.
A reparação não se resume a políticas públicas: ela implica mudança de paradigma civilizatório. Significa garantir terra a quilombolas, titulação dos territórios negros urbanos, investimento na economia negra, reconhecimento pleno das religiões de matriz africana, direito à memória e à verdade histórica, políticas educacionais antirracistas, justiça racial no mundo do trabalho, responsabilização do Estado pelo genocídio da juventude negra e reconfiguração das bases estéticas, jurídicas e epistemológicas do país.
Iniciativas como a lei de Cotas para ingresso na educação técnica, tecnológica e superior, as leis que garantem o ensino da cultura africana e afro-brasileira, a impulsão para eleição de parlamentares negras e negros cumprem um papel importante na disputa por inclusão e diversidade. Porém, são insuficientes.
A Reparação colocada aqui não é apenas acesso a direitos, é sobre poder de decisão. É transformar quem manda, quem define, quem administra, quem educa, quem financia e quem legisla. Reparação não é apenas mais integração de negras/os no Brasil que existe; é fundar outro Brasil, onde a experiência negra não seja exceção, mas vocação política da nação. O quilombo, o terreiro, a roda de samba, a pedagogia griô, a economia de axé, as tecnologias negras, a saúde comunitária, a estética afro-diaspórica, o cooperativismo popular e o mutualismo das irmandades sejam modelos de futuro — não sobrevivências do passado.
Esse é o chamado do Novembro Negro: reconhecer que não há democracia possível sem Reparação e que não há Reparação sem a perspectiva de tomada de poder. A luta do povo negro não é capítulo da história brasileira — é o eixo que permitirá que o Brasil exista como sociedade justa. A abolição não terminou. A história segue. O quilombo não acabou. O nosso futuro depende do empoderamento da maioria.
Ítalo Ariel Pereira Guerreiro faz parte da Coordenação Gestão 2025-2028 da ASSUFRGS.
Imagem: Arquivo do Movimento Negro Unificado (MNU).
