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Porto Alegre foi o lugar em que diversas lutas em defesa da classe trabalhadora tomaram corpo entre o fim do século XIX e o começo do século XX. As caminhadas de primeiro de maio e as greves gerais fazem parte desta história e a Praça da Alfândega foi um lugar chave para acontecimentos decisivos das lutas óperarias e sindicais. Por essa razão, defendemos a construção de um Monumento ao Primeiro de Maio e às Lutas Operárias neste local.
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Porto Alegre merece um Monumento ao Primeiro de Maio e às Lutas Operárias
Porto Alegre foi um dos berços das lutas operárias e sindicais no Brasil; esse pioneirismo pode ser observado na fundação de sindicatos, nas marchas de primeiro de maio e nas inúmeras greves realizadas entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Com efeito, a capital gaúcha era o lar de uma classe trabalhadora heterogênea, marcada pela presença de homens e mulheres de diversas origens étnicas, brasileiros e imigrantes vindos de diversas partes do mundo, que encontraram no movimento operário um espaço para construir uma identidade em comum: fazer parte da classe trabalhadora.
Naquele momento, que coincidiu com a expansão das indústrias e o aprofundamento das relações capitalistas, trabalhadores e trabalhadoras estavam sujeitos a jornadas de trabalho muito longas, de 12 à 16 horas; os locais de trabalho apresentavam muitas vezes péssimas condições sanitárias e não havia um sistema de proteção ao social trabalho. Na dinâmica da luta de classes, nasceu o esforço em comum e a solidariedade. Mas o tempo passou e a memória destas ações caíram no esquecimento, por isso estamos propondo um Monumento ao Primeiro de Maio e às Lutas Operárias em Porto Alegre, que deveria ser erigido na Praça da Alfândega. Mas porque a Praça da Alfândega? Porque este foi foi palco de alguns momentos muito importantes na construção do movimento operário e sindical na cidade.
O Ato e a Caminhada de 1º de Maio de 1892
O primeiro de maio, como dia internacional de luta da classe trabalhadora, surgiu para lembrar dos Mártires de Chicago, um grupo de operários anarquistas que foram condenados à morte, após a repressão à uma greve iniciada em 1º de maio de 1886, naquela cidade americana. Três anos depois, em 1889, a Internacional Socialistas definiu esta data como dia de luta pelas oito horas de trabalho. No Brasil, os primeiros atos de 1º de maio foram realizados em 1891 no Rio de Janeiro, Santos e São Paulo; em Porto Alegre, o 1º de maio foi celebrado em 1892, o que significa que a capital gaúcha foi uma das pioneiras nesta celebração. No dia 1º de maio de 1892, trabalhadores e trabalhadoras brasileiros e imigrantes se reuniram na Praça da Alfândega reivindicando melhores condições de vida para a classe operária; depois deste ato, o grupo seguiu até a Rua Dr. Flores, onde ocorreu uma nova reunião; atravessou o Bairro Floresta, principal bairro operário da época, e terminou as atividades em uma chácara na Avenida Independência.

Poster homenageando os mártires de Chicago

Convite para ao ato público de 1 de maio. A Federação. Porto Alegre, 29 de abril de 1892, p.1.
A Greve Geral de 1906.
A primeira greve geral do sul do Brasil ocorreu em Porto Alegre, entre os meses de setembro e outubro de 1906. A paralisação começou com a reivindicação dos operários marmoristas, que se mobilizaram pelas oito horas de trabalho na oficina de Aloys Friedrich (uma das maiores oficinas do ramo). Como Aloys não respondeu ao pedido, os trabalhadores iniciaram uma greve, que logo se espalhou para outras oficinas e fábricas, envolvendo trabalhadores e trabalhadoras do setor metalúrgico, da panificação, dos madeireiros, pedreiros, tecelões entre outros. Um dos mais importantes comícios daquela greve ocorreu no dia 23 de setembro, na Praça da Alfândega, em um dia chuvoso quando o líder socialista Carlos Cavaco lançou a ideia da fundação de uma Federação Operária no Rio Grande do Sul. Durante o comício, Cavaco defendeu de forma veemente a criação de uma “Federação Rio-Grandense Operária”, como forma de resistir à força patronal. A Greve Geral durou até o dia 21 de setembro de 1906, terminando com o estabelecimento de 9 horas de trabalho para várias categorias. Apesar desta vitória significativa, um dos principais ganhos desta greve foi a formação da Federação Operária do Rio Grande do Sul (durante a própria greve), que teve a sua primeira diretoria definitiva eleita em 1907. A Federação Operária seria a principal entidade que organizou os sindicatos do Rio Grande do Sul até os anos 1930, sendo um “embrião” das atuais centrais sindicais.

Operários marmoristas empregados da Casa Aloys Friedrich na virada do século XIX e XX; foram estes trabalhadores que iniciaram a greve geral de 1906. Noticiário Semanal Histórico da Casa Aloys Ltda. Porto Alegre, 1950.

Trechos da notícia, sobre o comício da Praça da Alfândega, onde foi lançada a ideia de uma Federação Operária. Petit Journal. Porto Alegre, 24/9/1906, p.2.

Instalação da Federação Operária, em março de 1907. A Democracia. Porto Alegre, 10/3/1907. P.1
Greve Geral de 1917
Em 1917, o Brasil vivia um período de crise econômica, provocado pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. Os salários estavam desvalorizados e o preço dos alimentos cresciam por conta da inflação. Para piorar o cenário, parte dos produtos eram importados e muitos revendedores “ocultavam’ os produtos para provocar um aumento maior de preços, em um cenário de carestia de vida. Na cidade de São, uma grande Greve Geral havia ocorrido no mês de junho e julho de 1917, com ganhos para os trabalhadores. Em Porto Alegre, lideranças sindicais anarquistas formaram uma Liga de Defesa Popular, publicando um manifesto em que pediam melhores salários, oito horas de trabalho e proteção ao trabalho feminino e infantil, mas também pediam o controle do preço dos alimentos, aluguéis e custo do transporte para a população em geral. No dia 31 de agosto, foi convocado um comício para a Praça da Alfândega, que deflagrou a Greve Geral em Porto Alegre. A Praça se encheu de quase quatro mil pessoas, que foram reforçados com uma grande marcha vinda do bairro Navegantes, onde se destacavam um grande número de operárias tecelãs em sua vanguarda. O comício, assistido por uma multidão, iniciou uma das greves mais importantes da história, que paralisou a cidade por cinco dias e resultou em uma série de acordos favoráveis para os trabalhadores e trabalhadoras.

Registro da Greve Geral de 1917 em Porto Alegre.

Notícias do Comício da Praça da Alfândega, que deu início à Greve Geral de 1917. Correio do Povo. Porto Alegre, 1/8/1917. P.1 e 2.
A Praça da Alfândega foi palco de três importantes acontecimentos para a formação de um movimento operário e sindical e para a constituição de um pertencimento à classe trabalhadora em Porto Alegre: o primeiro ato de 1º de Maio na capital gaúcha (e um dos primeiros do Brasil), em 1892; o lançamento da ideia de uma Federação Operária, na histórica Greve Geral de 1906, o que daria as bases para a construção de uma das mais importantes entidades trabalhistas na história do estado, a Federação Operária do Rio Grande do Sul e também a o início da Greve Geral de 1917, que uma das principais mobilizações operárias do século XX. Além destes atos, a praça da alfândega também serviu como lugar de outras reuniões, como o comício operário contra a carestia de vida, em setembro de 1912.

Revista Kodak Porto Alegre, 05/10/1912, página 15
Essa significativa história de mobilizações justifica a instalação de um Monumento ao Primeiro de Maio e às Lutas Operárias, como forma de marcar aquela praça como um lugar de memória da classe trabalhadora porto-alegrense.
Estudo elaborado por Frederico Duarte Bartz / Centro de Documentação e Memória da ASSUFRGS Sindicato (CEDEM ASSUFRGS)
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