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Artigo – Memória, repressão e interesses econômicos nas universidades durante a ditadura empresarial-militar brasileira: uma análise a partir do filme O Agente Secreto

César Rolim, Fernanda Feltes, Frederico Bartz

Sabe quando você lembra porque uma pessoa lhe conta e você cria uma memória? Eu não sei se me lembro desse dia. Na verdade, Flávia, eu não lembro dele. A verdade é que você lembra mais do meu pai do que eu. (Fernando – personagem do filme O Agente Secreto).

A produção audiovisual brasileira, a partir do filme Pra frente Brasil (1982), desempenha um papel central na disputa contemporânea pela memória e história sobre o período da ditadura empresarial-militar (1964–1985) cujo golpe, que iniciou  o período de trevas na sociedade brasileira, completou 62 anos, no dia primeiro de abril. O filme O Agente Secreto (2025) insere-se neste contexto ao retratar os mecanismos de vigilância, infiltração, controle, perseguições, tortura, repressão e desaparecimentos empregados pelo Estado. Somado a isso, mostra também a presença de interesses empresariais, vinculados ao imperialismo econômico, nas instituições de ensino superior.

Mais do que uma película belíssima, com um reconhecimento internacional significativo e mais de 70 prêmios recebidos, o filme caracteriza-se por uma reconstrução histórica que abarca as violências ocorridas na região do Nordeste do país e propõe uma reflexão sobre as permanências desse passado no presente, especialmente no que se refere à ausência de responsabilização aos crimes ocorridos contra quem pensava diferente da ditadura, especialmente os setores populares da sociedade. Este texto busca analisar, a partir do filme, o direito à memória, à justiça e à reparação; a presença de interesses empresariais nas universidades durante a ditadura empresarial-militar; e a repressão às mobilizações sociais no país, especialmente no Nordeste.

Direito à memória, justiça e reparação

O filme O Agente Secreto evidencia que a repressão estatal não se limitou à violência física, mas incluiu estratégias sistemáticas de apagamento da memória. O personagem Marcelo (Wagner Moura) volta para Recife, em 1977, um local de pirraça, e de início percebe-se que está em busca de algo e está fugindo do aparato repressor estatal, motivos que serão revelados ao longo da história.

Neste Brasil da ditadura empresarial-militar, existem empresários, vinculado aos interesses imperialistas, influindo também nas universidades, policiais corruptos, entre outras forças regidas pela Doutrina de Segurança Nacional que justificavam as perseguições contra o “inimigo interno”. Essas forças de segurança se beneficiavam de seus contatos para fazer com que documentos desaparecessem, ou sequer viessem a existir; logo, as circunstâncias mostradas no filme fazem parecer que tudo e todos poderiam ser agentes duplos.

Ninguém sabe, contudo, qual é a missão de Marcelo, assim como onde estão as informações verdadeiras e se elas estão sendo sistematicamente trancadas em locais inacessíveis. O passado de familiares de Marcelo está incluso nisso, e quando ele começa uma nova vida, ele está tão interessado em descobrir quanto em não ser descoberto, em lembrar e não ser lembrado.

O esquecimento se constitui também como uma estratégia de poder. Nesse sentido, a obra dialoga com a compreensão de Paul Ricoeur, na obra A memória, a história e o esquecimento (2007), para quem o esquecimento imposto constitui uma forma de violência política. A memória e o esquecimento, portanto, assumem um papel político fundamental. Elizabeth Jelin na obra Los trabajos de la memoria (2002, p. 17), lembra que as memórias são sempre construções sociais em disputa, atravessadas por relações de poder. Ao dar visibilidade às práticas repressivas e às suas consequências, O Agente Secreto insere-se nas lutas pela memória, confrontando narrativas oficiais que minimizam ou relativizam as violências cometidas durante a ditadura empresarial-militar.

Importante lembrarmos que a reconstrução da democracia no Brasil ocorreu sem a efetiva responsabilização dos agentes da repressão, em razão da interpretação dominante da Lei da Anistia. Abrão e Torelly (2011, p. 78) apontam que a justiça de transição brasileira privilegiou a estabilidade política em detrimento do direito das vítimas à verdade e à justiça.  Essa impunidade dos criminosos e total ausência de responsabilização, reconhecimento e punição de quem praticava o arbítrio aparecem no filme como elementos centrais da permanência do autoritarismo nas instituições.

Universidades, interesses empresariais, ditadura e repressão

Um aspecto abordado pelo filme é algo nem sempre abordado pela filmografia acerca da ditadura: os vínculos de empresas públicas e privadas com o aparelho repressor estatal, assim como os interesses e ações dentro das universidades. Armando, interpretado por Wagner Moura, é pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e se vê ameaçado de morte a mando de um empresário paulista, Henrique Ghirotti, que integra o conselho da Eletrobras, então ligada ao Ministério de Minas e Energia.

Heloísa Traiano aponta que, em sigilo, pelo menos cinco empresas compõem atualmente mesas de negociação com o Ministério Público Federal (MPF), para discutir o interesse em acordos de reparação. Com exceção da montadora alemã Volkswagen, nunca empresas ou empresários foram judicialmente responsabilizados pelas alegadas violações, escavadas cada vez mais pela historiografia desde a redemocratização. 

A UFRGS, onde atuamos como técnica e técnicos-administrativos em educação, é mencionada no filme através da personagem Luanda Azevedo (interpretada por Rafaela Pavin), que é uma professora e pesquisadora formada pela universidade. Durante uma reunião com colegas docentes e representantes da empresa de Ghirotti, Luanda afirmou que “todos os projetos são financiados com verbas públicas de pesquisa. E nós temos projetos que são financiados por capital estrangeiro independente”. Naquele contexto, o empresário paulista estava interessado em desmantelar o Departamento de Energia Elétrica da UFPE, chefiado por Armando, que menciona na sequência do filme que Luanda foi a primeira vítima de perseguição: afastada de suas funções como docente, foi colocada para trabalhar no metrô de São Paulo.

O afastamento de pesquisadores vistos como “problemáticos” pela ditadura foi uma prática imediata, redundando nos expurgos de 1964 e 1969, respaldada pelo AI-5 e pelo decreto 477/1969. Essas práticas minaram a autonomia universitária e reorientaram a pesquisa produzida para “projetos prioritários”, afinados com os interesses da ditadura e das grandes empresas, como indica Leher (2019).

A presença empresarial sobre a produção de conhecimento, pesquisa e tecnologia significou também um processo de transferência de recursos públicos à iniciativa privada. Um processo de controle, portanto, sobre a definição de objetos e finalidade de pesquisa. É importante salientar que a universidade pública brasileira é responsável pela imensa maioria da pesquisa produzida no Brasil. Segundo dados da Academia Brasileira de Ciências, em 2019 esse índice chegou a 95%.

Concomitantemente ao processo de perda de autonomia das universidades pela perseguição da ditadura, o interesse estadunidense nas instituições brasileiras aumentava. Isso se deu na forma de acordos firmados entre o MEC e a USAID, por meio de doações e concessão de bolsas de pós-graduação pela Fundação Ford, Kellogg ou outras. Nesse caso, o controle não manifestava só interesses empresariais, mas intenções alheias aos interesses públicos brasileiros. A cena de O Agente Secreto é emblemática ao apresentar a projeção de interesses privados sobre as empresas estatais brasileiras e sua participação nos processos de distorção sobre a pesquisa praticada nas universidades. Aliás, sobre o tópico é sempre válido recomendar a leitura do trabalho de Pedro Henrique Campos, ‘Estranhas Catedrais’: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988, publicado em 2014.

As violências praticadas por empresários na ditadura foram tão sistemáticas quanto variadas, prolongaram-se do campo à cidade, de Norte a Sul, nas fábricas, nas terras indígenas, do litoral à Amazônia. Os seus mecanismos incluíram a repressão, em aliança com forças policiais, a trabalhadores organizados; a coleta interna de informações para espionagem; o fornecimento de apoio logístico e material para o Estado; e a montagem de centros, clandestinos ou não, de prisão e tortura como evidencia Cidadão Boilensen (2009), outro filme importante para conhecimento deste período histórico.

A repressão direcionada às classes populares, especialmente no Nordeste, constitui outro aspecto fundamental da análise. Historicamente marcada por desigualdades sociais e econômicas, a região foi tratada pela ditadura como foco de instabilidade política. Durante a ditadura, movimentos sociais, sindicatos, trabalhadores rurais e lideranças comunitárias foram sistematicamente reprimidos.

O filme retrata essa dinâmica ao evidenciar como a repressão no Nordeste também assumiu um caráter de reforço aos processos de exploração capitalista. A relação que o empresário Henrique Ghirotti estabelece com os pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco aponta para o papel das desigualdades regionais que se aprofundaram durante a ditadura. Enquanto o Sudeste se destaca como polo dinâmico do capitalismo, concentrando riqueza e inovação tecnológica, outras áreas são relegadas a serem coadjuvantes deste processo, como o Nordeste, com o papel de fornecedor de mão-de-obra ou de “produtos regionais”. Ao dar centralidade a esses sujeitos e processos  historicamente invisibilizados, O Agente Secreto amplia o debate sobre a ditadura para além dos grandes centros urbanos do Sudeste.

Ditadura nunca mais! Sem anistia a golpistas!

A análise do filme O Agente Secreto permite compreender a ditadura empresarial-militar brasileira como um projeto estrutural, sustentado pela articulação entre repressão política, interesses empresariais e controle das mobilizações sociais das classes populares, também dentro das instituições de ensino como as universidades públicas. Ao relacionar memória, justiça e reparação com a dinâmica das universidades e com a violência direcionada ao Nordeste, a obra evidencia que os efeitos do autoritarismo permanecem inscritos nas instituições e nas relações sociais contemporâneas.

Enfrentar o passado ditatorial, bem como as suas permanências no presente, não é apenas um exercício de rememoração, mas uma condição necessária para a consolidação de uma democracia substantiva, participativa, que potencialize a autonomia e plena liberdade de cátedra aos educadores. Esta democracia deve ser comprometida com o combate às injustiças e desigualdades sociais, com a produção autônoma e crítica do conhecimento, com a punição dos criminosos políticos durante a ditadura, o reconhecimento das vítimas da repressão e sem nenhuma anistia a quem golpeou e ainda tenta golpear a democracia no país.

Referências

ABRÃO, Paulo; TORELLY, Marcelo. Justiça de transição no Brasil: a dimensão da reparação. Revista Anistia Política, Brasília, n. 5, p. 74–96, 2011.

CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. “Estranhas Catedrais”: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niterói: EDUFF, 2014.

LEHER, Roberto. Autoritarismo contra a universidade: o desafio de popularizar a defesa da educação pública. São Paulo: Expressão Popular, 2019.

JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Madrid: Siglo XXI, 2002.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

TRAIANO, Heloísa. A ditadura empresarial-militar que ronda “O Agente Secreto”. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/a-ditadura-empresarial-militar-que-ronda-o-agente-secreto/a-76336375.  Acesso em: 30 de março de 2026.

César Rolim: Técnico em Assuntos Educacionais na UFRGS; Compõe a atual Coordenação da ASSUFRGS; Mestre em História pela UFRGS; Professor de História da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA).

Fernanda Feltes: Técnica em Assuntos Educacionais na UFRGS; Graduada e Mestre em História pela UFRGS; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da FACED/UFRGS; Compõe a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós (UFRGS).

Frederico Duarte Bartz: Técnico em Assuntos Educacionais na UFRGS; Historiador, Mestre e Doutor em História pela UFRGS; Coordenador do Curso de Extensão Caminhos Operários em Porto Alegre, onde divulga a história, a memória e o patrimônio da classe trabalhadora na capital gaúcha.