Julho das Pretas da ASSUFRGS promove reflexões sobre racismo, representatividade e a trajetória de mulheres negras no serviço público
A ASSUFRGS Sindicato realizou, na quinta-feira (23), uma atividade do Julho das Pretas, reunindo servidoras(es), aposentadas(os), pensionistas e representantes de diferentes entidades sindicais para um diálogo sobre as trajetórias de mulheres negras no serviço público, os desafios enfrentados ao longo da carreira e a importância da organização coletiva na luta antirracista. O encontro aconteceu no Auditório da ASSUFRGS, das 17h30 às 20h30.

Representando a ASSUFSM, Alessandra Alfaro relembrou sua trajetória no movimento sindical e destacou que foi a primeira coordenadora negra do sindicato em mais de cinco décadas de existência. Para ela, embora as mulheres negras busquem constantemente qualificação, continuam enfrentando barreiras estruturais para acessar espaços de liderança. “Nós precisamos nos qualificar e, embora a gente busque isso, sempre estamos enfrentando barreiras”, reconhece.
Alessandra ressaltou que, certamente, muitas mulheres negras qualificadas passaram pela entidade ao longo de sua história, mas permaneceram invisibilizadas enquanto homens brancos ocuparam os espaços de maior protagonismo.
Também convidada, Mara Beatriz Gomes, da ASUFPel, falou sobre sua trajetória até chegar à coordenação do sindicato, cargo que ocupou em 2022. Ela destacou a transformação ocorrida nas universidades, onde pessoas negras passaram a ocupar espaços para além dos setores de limpeza e manutenção, assumindo posições de protagonismo.
Durante sua fala, Mara afirmou que é preciso questionar as estruturas. “Não basta ocupar um espaço de pessoa preta, mas tem que questionar e causar desconfortos que são necessários”, afirma.
Ela também chamou atenção para a dupla condição de gênero e raça enfrentada pelas mulheres negras e defendeu a importância de encontros como esse para refletir sobre o significado da representatividade dentro das entidades sindicais.
Representando o IFRS, Maiara da Silva, natural de Santa Cruz do Sul, compartilhou episódios marcantes de racismo vividos durante sua formação acadêmica e atuação profissional. Ela relembrou que foi a partir de uma situação discriminatória, quando ouviu a expressão “olha a negrice que tu fez aqui”, que tomou consciência de como era vista socialmente por ser uma mulher negra.
Maiara contou que conciliava estudo e trabalho, o que muitas vezes a fazia ser interpretada como uma pessoa isolada. Primeira integrante da família a concluir um mestrado, relatou ainda os desafios de ser a única professora negra em uma escola e de construir uma trajetória acadêmica em espaços onde raramente se viam mulheres negras.
Para ela, compreender o que caracteriza uma atitude racista provoca indignação, mas também fortalece a luta. Maiara alertou para a “armadilha da representatividade”, quando pessoas negras são chamadas apenas para ocupar simbolicamente determinados espaços, sem que isso represente mudanças estruturais. “A gente não tem espaço para falhar. Eu nunca tive esse limite de erro”, compartilha.
Ao abordar o conceito de diáspora africana, Maiara relacionou-o ao sentimento de não pertencimento vivido por muitas pessoas negras na sociedade brasileira e reforçou que aliados precisam compreender seu papel sem ocupar o protagonismo de quem vive o racismo.
Priscila Vieira Bastos, servidora TAE da ASSUFRGS, falou sobre sua trajetória na Restinga e da mobilização comunitária que tornou possível a criação do campus Restinga do IFRS, instituição onde atualmente trabalha. Ela destacou que a escola técnica é resultado da força da comunidade e refletiu sobre a necessidade constante de mulheres negras demonstrarem qualificações muito acima da média para terem seu trabalho reconhecido.
Pela Coordenação de Diversidade e Combate às Opressões da ASSUFRGS, Geni dos Santos Maria relembrou a importância que sua mãe atribuía aos estudos como caminho para romper barreiras impostas à população negra e pobre. Após prestar três vestibulares, conquistou uma vaga na UFRGS e destacou que espaços como o Julho das Pretas devem servir para compartilhar experiências sem esconder as dificuldades enfrentadas. “A vida de toda preta é uma vida de luta constante, mas que nos motiva. As histórias compartilhadas aqui são a prova de que existem conquistas”, diz.
Também integrante da Coordenação de Diversidade e Combate às Opressões, Vanessa Franco Fontoura destacou que a categoria tem avançado na construção de um olhar mais atento às questões raciais e agradeceu a Lais Camisolão pelo apoio financeiro e pela organização do espaço que recebeu a atividade.
Durante o encontro, Luci Jorge, integrante do GT Mulheres, compartilhou sua origem em Santana do Livramento e afirmou se reconhecer como indígena, ampliando o debate sobre identidade e pertencimento.
Encerrando as falas, a servidora aposentada da UFRGS Joana de Oliveira relembrou situações de discriminação vividas durante sua atuação profissional na universidade, especialmente no período em que trabalhava na cozinha. Segundo ela, o conhecimento técnico que possuía despertava resistência entre colegas, chegando a ser impedida de acessar seu local de trabalho. Formada em Gestão Ambiental desde 2019, Joana deixou uma mensagem de resistência e esperança. “Enquanto a gente está viva, a gente tem que lutar por dias melhores. Nós somos negras, temos orgulho da nossa pele e nunca podemos perder o nosso lugar ao sol”, encerra.

O Julho das Pretas reafirmou a importância de criar espaços de escuta, fortalecimento e construção coletiva, evidenciando que as trajetórias das mulheres negras no serviço público são marcadas pela resistência constante. Durante a atividade, as(os) colegas presentes puderam contribuir com falas, questionamentos, sugestões e elogios à iniciativa, tornando-a ainda mais dinâmica.
Confira as fotos:
2026.07.23_Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha
