Na UFSM, ASSUFRGS participa de roda de conversa sobre racismo institucional e desafio para a equidade racial nas instituições públicas
O GT Políticas Sociais e Antirracismo da ASSUFSM promoveu, na manhã desta terça-feira (03), no Salão Imembuí, no segundo andar do prédio da Reitoria, uma roda de conversa sobre racismo institucional, como parte da programação do Novembro Negro.
Participaram do debate Ítalo Ariel Pereira Guerreiro, técnico-administrativo em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Coordenador Geral da ASSUFRGS Sindicato; Maiara Alessandra Lopes da Silva, técnica em Assuntos Educacionais do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Campus Osório; e Mara Beatriz Nunes Gomes, doutora em Sociologia, docente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), técnica-administrativa em Educação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Coordenadora Geral da ASUFPEL e do GT Negros e Negras da entidade. A gestão da UFSM também esteve representada através do professor Anderson Machado dos Santos que está a frente da Assessoria de Políticas Afirmativas da Universidade.
Relatos de experiências evidenciam as manifestações do racismo institucional
Um dos momentos centrais da atividade foi o relato de Maiara sobre as experiências de racismo vivenciadas em sua trajetória profissional no serviço público. A partir de sua própria história, ela destacou como a ocupação de determinados espaços, especialmente aqueles historicamente não associados às mulheres negras, pode desencadear processos de discriminação, deslegitimação e violência institucional.
Ao compartilhar sua experiência, relatou que o ingresso no serviço público representava uma conquista pessoal e familiar. Primeira pessoa da família a alcançar determinadas etapas da formação acadêmica e a ingressar por concurso público, chegou à instituição com a expectativa de encontrar um ambiente de valorização intelectual e profissional. No entanto, deparou-se com situações de hostilidade e questionamentos constantes sobre sua presença e sua competência.
Maiara destacou que as manifestações de racismo nem sempre acontecem de maneira explícita. Muitas vezes, aparecem por meio de microagressões, desconfiança, desrespeito e comportamentos que, acumulados ao longo do tempo, produzem um ambiente de violência e exclusão.Segundo o relato, a mudança de posição profissional também foi determinante para compreender a dimensão dessas experiências. Ao deixar uma atividade associada socialmente ao trabalho de cuidado e ocupar uma função de maior reconhecimento intelectual, responsabilidade e remuneração, passou a enfrentar resistências relacionadas à sua presença naquele espaço.
A situação chegou ao campo judicial. Após vivenciar episódios de violência institucional, a servidora decidiu tornar pública sua experiência, por meio de uma carta aberta, e ingressou com uma ação judicial. Também relatou ter enfrentado processos individuais movidos por pessoas envolvidas nos acontecimentos, o que prolongou o desgaste emocional e profissional. Ao apresentar objetos e registros relacionados à sua trajetória, demonstrou como precisou conciliar a continuidade do trabalho, a defesa de seus direitos e o enfrentamento das consequências emocionais da violência sofrida.
Em sua fala, enfatizou a importância de compreender o racismo institucional para que as pessoas atingidas não sejam levadas a responsabilizar a si mesmas pelas situações de discriminação.Afirmou ainda que compartilhar sua experiência também é uma forma de encorajar outras pessoas a reconhecerem situações de violência, buscarem proteção e cobrarem das instituições a responsabilidade por suas práticas.
A participante informou que, em 1º de outubro, foi proferida sentença favorável à sua ação, com reconhecimento de seus argumentos e condenação da instituição ao pagamento de indenização. As demais ações individuais contra ela foram julgadas improcedentes. Ressaltou, contudo, que ainda existem etapas processuais a serem concluídas.
Racismo institucional é resultado de estruturas históricas de desigualdade
Na sequência, o debate aprofundou a compreensão do racismo como um fenômeno social que ultrapassa atitudes individuais e se manifesta na própria organização das instituições.
Mara Beatriz Nunes Gomes contribuiu com uma reflexão sobre a relação entre racismo, desigualdade social e distribuição de privilégios. A partir de sua formação e trajetória de pesquisa, destacou que discutir racismo institucional significa analisar como as estruturas sociais estabelecem hierarquias, determinam acessos e naturalizam desigualdades. A pesquisadora chamou atenção para o fato de que o racismo não se limita a manifestações explícitas de preconceito. Ele também se reproduz por meio de normas, procedimentos, relações de poder e práticas aparentemente neutras, que acabam favorecendo determinados grupos e dificultando a participação de outros. Nesse sentido, ressaltou que pessoas negras que passam a ocupar posições de liderança, coordenação ou destaque profissional frequentemente enfrentam resistências que não podem ser compreendidas apenas como conflitos individuais.
O debate também trouxe exemplos de situações em que mulheres negras encontram dificuldades para desenvolver projetos, acessar recursos e exercer plenamente suas atribuições profissionais. Foram mencionados episódios de retirada de responsabilidades, questionamentos sobre a competência e deslegitimação de trabalhos construídos por essas profissionais.
A reflexão apontou que essas práticas podem comprometer não apenas a trajetória individual de quem sofre a discriminação, mas também a capacidade das instituições de aproveitar conhecimentos, experiências e contribuições de seus trabalhadores.
Outro aspecto abordado foi a necessidade de compreender o racismo a partir de uma perspectiva interseccional, considerando como raça, gênero e classe social se articulam na produção das desigualdades.
Representatividade e políticas afirmativas no movimento sindical
Ítalo Ariel Pereira Guerreiro também destacou que o racismo institucional precisa ser enfrentado por meio de ações concretas, capazes de modificar a organização dos espaços de poder. Ao abordar sua experiência no movimento sindical, relatou iniciativas voltadas à ampliação da participação de pessoas negras nos espaços de representação e decisão.
Entre os exemplos apresentados, mencionou a adoção de mecanismos de cotas para garantir a presença de pessoas negras nas chapas e instâncias de representação sindical. A proposta surgiu diante da dificuldade de assegurar que esses grupos ocupassem efetivamente posições de destaque e liderança.
Segundo Ítalo, mesmo quando existem mecanismos formais de participação, surgem justificativas que tentam deslegitimar a presença de pessoas negras, como questionamentos sobre experiência, capacidade de comunicação ou preparo para assumir determinadas funções. Para ele, essas justificativas precisam ser analisadas criticamente, pois muitas vezes reproduzem desigualdades históricas e impedem que pessoas negras tenham as mesmas oportunidades de participação.
O convidado também relacionou o racismo institucional à atuação do Estado brasileiro, citando como exemplo as desigualdades presentes no sistema prisional, na educação e no acesso às políticas públicas. Ao abordar a interseccionalidade, destacou que o enfrentamento do racismo exige considerar as diferentes formas pelas quais as desigualdades atingem a população negra, especialmente as mulheres negras, que frequentemente assumem responsabilidades familiares e sociais diante das consequências da violência e do encarceramento.
Como encaminhamento, defendeu a ampliação da representatividade, a produção de diagnósticos institucionais, a transparência dos dados e o fortalecimento das políticas afirmativas.Também ressaltou que as ações de formação são importantes, mas precisam estar acompanhadas de mudanças nas estruturas e nos procedimentos institucionais.
Gestão da UFSM apresenta dados sobre a presença de pessoas negras na UFSM
Anderson Machado dos Santos que está a frente da Assessoria de Políticas Afirmativas da Universidade. trouxe ao debate um panorama sobre a composição do quadro de servidores(as) da UFSM e as iniciativas institucionais voltadas à equidade racial.
Durante a exposição, foram apresentados dados que demonstram a baixa representatividade de pessoas negras e indígenas entre os trabalhadores da Universidade, especialmente nos cargos docentes e nas posições de gestão. Nesse contexto, foi defendida a importância de analisar a trajetória da própria Universidade, reconhecendo que sua estrutura também reflete as desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.
A exposição também destacou os avanços conquistados nas políticas de acesso ao ensino superior, incluindo ações afirmativas destinadas a pessoas negras, indígenas, quilombolas e pessoas trans. Entretanto, foi ressaltado que garantir o ingresso não é suficiente. Segundo o docente é necessário construir políticas que assegurem condições de permanência, participação, desenvolvimento profissional e ocupação de espaços de decisão.
Enfrentamento exige compromisso coletivo e mudanças institucionais
Ao longo da roda de conversa, as diferentes contribuições convergiram para uma compreensão: o racismo institucional não pode ser enfrentado apenas por meio de discursos ou ações pontuais.É necessário reconhecer como as desigualdades se manifestam nas relações cotidianas, nos processos de trabalho, na distribuição de oportunidades, no acesso aos recursos e na ocupação dos espaços de decisão.
Os relatos também evidenciaram que a violência institucional pode produzir consequências profundas na vida profissional e pessoal das pessoas atingidas, exigindo das instituições mecanismos efetivos de acolhimento, prevenção, responsabilização e reparação. Outro ponto destacado foi a importância de não individualizar a responsabilidade pelo enfrentamento do racismo. Embora as estruturas reproduzam desigualdades históricas, as práticas institucionais são realizadas por pessoas e podem ser transformadas por meio de escolhas, políticas e compromissos coletivos.
Promovida pela ASSUFSM no contexto do Novembro Negro, a roda de conversa reafirmou a importância de abrir espaços de escuta, compartilhar experiências e transformar o debate em ações concretas. Mais do que reconhecer a existência do racismo institucional, o encontro destacou a necessidade de enfrentá-lo cotidianamente, garantindo que a equidade racial esteja presente não apenas nos discursos, mas também nas decisões, nas políticas e nas práticas das instituições públicas.
Fonte: ASSUFSM
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