Artigo – Das urnas à Luta de Classes: O balanço da vitória Antifascista e os próximos passos da Mobilização Social
Artigo escrito por Ítalo Ariel Pereira Guerreiro | Coordenador Geral da ASSUFRGS – Sindicato e Patrick Veiga da Silva | Mestrando em História, Militante do Coletivo Juntos e do MES/PSOL.
A virada no segundo turno das eleições brasileiras expressou a força de uma combinação decisiva: um programa econômico voltado à melhoria da vida do povo, com destaque para o fim da escala 6×1, um amplo movimento social que tomou as ruas de todo o país e uma campanha de redes que rompeu bolhas algorítmicas. Este balanço procura compreender como essa mobilização derrotou a extrema direita nas urnas, dificultou seus intentos golpistas e abriu uma disputa sobre os rumos do próximo governo e as tarefas da esquerda.
A dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno substituiu a expectativa de uma vitória imediata de Lula por um cenário de alerta para as forças democráticas e populares. A possibilidade de retorno do projeto autoritário bolsonarista ao governo federal, alimentada pela memória dos ataques a direitos e às condições de vida durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, colocou a esquerda diante da necessidade de mudar os rumos da campanha. As manifestações convocadas naquela mesma noite por partidos e movimentos sociais ultrapassaram, nas semanas seguintes, os limites da militância organizada. O que poderia se restringir a uma resposta protocolar ganhou força social, envolveu novos setores e transformou a disputa eleitoral em uma batalha popular pelo futuro do país.
1. A Anatomia da Virada Eleitoral e o Despertar do Levante Popular
A vitória eleitoral no segundo turno das eleições presidenciais representa um marco histórico na dinâmica da luta de classes no Brasil. Mais do que a alternância ou continuidade de poder nos marcos do sistema institucional, o que culminou na superação da candidatura da extrema direita foi o desfecho do que pode ser considerado um levante democrático e popular, 13 anos após o último movimento de massas acontecido no país. O resultado das urnas, alcançado com uma votação recorde que superou a marca dos 64 milhões de votos, refletiu a recusa decisiva da classe trabalhadora e seus setores em aceitar a degradação das condições de vida e o projeto autoritário e miliciano que tenta se consolidar no país.
Essa virada inédita rompeu um cenário que era adverso nas semanas anteriores. Diante do desespero das forças reacionárias, que recorreram a manobras de supressão de votos restringindo frotas de ônibus em grandes cidades, como Salvador e São Paulo, e à contínua manipulação de dados, a resposta social emergiu de baixo para cima. O motor decisivo dessa mudança não residiu nos bastidores das negociações de gabinete, mas na capacidade de contágio e auto-organização que tomou as ruas e as redes sociais. O epicentro desse processo esteve na juventude, que funcionou como faísca para desatar mobilizações nas cinco regiões do país, culminando em atos massivos em diversas capitais e em viradas eleitorais expressivas no Sudeste, no Sul e nas periferias.
O processo eleitoral assumiu a forma de uma batalha direta entre dois blocos sociais antagônicos. De um lado, estruturou-se uma pulsão de massas impulsionada pela busca por direitos e dignidade; de outro, articulou-se o atraso, capitaneado pelo agronegócio, pelo capital financeiro, pelos que lucram com as bets, por setores do alto clero neopentecostal, por setores repressivos do Estado e pelo crime organizado ligado às milícias. A derrota dessa aliança reacionária nas urnas pode alterar a correlação de forças em nível político, retirando a extrema direita da ofensiva direta sobre o poder executivo e constrangendo-a de levar a cabo, inicialmente, medidas antipopulares; reabrindo o espaço para a ação independente da maioria da sociedade.
As fissuras no apoio religioso ao bolsonarismo também merecem atenção. A participação de evangélicos na defesa de direitos e da democracia ajudou a contestar a pretensão de que sua fé teria uma representação política única. Após o segundo turno, o afastamento de lideranças religiosas das iniciativas de contestação do resultado ampliou o isolamento golpista. O bispo JB Carvalho, ligado à igreja em que Flávio se batizou, afirmou que a disputa estava encerrada e rejeitou um “terceiro turno”. Esse posicionamento não equivale, por si só, a uma ruptura integral com o bolsonarismo, mas revela limites à capacidade de seus dirigentes de mobilizar automaticamente as comunidades evangélicas. Dialogar com essa base trabalhadora exige respeito à fé e compromisso com suas necessidades materiais.
2. A Centralidade da Pauta das/os Trabalhadoras/es e a Luta nas ruas e nas redes
Um dos elementos mais marcantes da virada política foi a emergência de um programa de melhoria concreta das condições de vida como fator de conscientização de classe, dinamizando a batalha e conferindo confiança e sentido de unidade ao ativismo, tendo como grande marco a luta pelo fim da escala de trabalho 6×1, sem redução salarial. Essa pauta transcendeu as bolhas partidárias tradicionais e conectou-se diretamente com o sentimento de exaustão de milhões de trabalhadores que atuam no varejo, nas praças de alimentação, no atendimento de telemarketing e em drogarias por todo o país, em grande parte jovens e negras e negros.
Ao colocar a redução da jornada de trabalho e a preservação dos salários no centro do debate público, o movimento de massas conseguiu desarmar a demagogia da extrema direita junto a setores da própria base trabalhadora. A demanda por tempo livre, saúde mental e descanso transformou-se em um divisor de águas ideológico, demonstrando que a disputa contra o neofascismo só atinge profundidade quando vinculada à contestação da superexploração do trabalho. Simultaneamente, a batalha eleitoral exigiu o enfrentamento de uma guerra de comunicação sem precedentes. A extrema direita operou apoiada pelo grande capital transnacional, pelas Big Techs e por algoritmos de plataformas digitais desenhados para favorecer a circulação de pautas reacionárias. Superar esse cerco exigiu a conformação de redes descentralizadas de ativismo que funcionaram como um verdadeiro organizador coletivo digital. Para além das táticas centralizadas de engajamento virtual, primordialmente o Exército do Lula, criado por Janones, o verdadeiro diferencial veio de inúmeras iniciativas individuais na criação de imagens, memes, vídeos e músicas, enfraquecendo a manipulação algorítmica. A combinação entre a agitação nas redes e a capacidade de ocupar massivamente o espaço público, preenchendo grandes avenidas com passeatas e comícios autogestionados, provou que o ativismo virtual só é efetivo quando enraizado na força viva das ruas.
3. Trump, o Anti-imperialismo e a Inserção Internacional
A derrota da extrema direita no Brasil repercutiu diretamente no tabuleiro geopolítico global, com o pleito brasileiro assumindo contorno plebiscitário sobre a soberania nacional e a resistência ao neocolonialismo. A derrota do candidato miliciano significou um duro golpe nas pretensões do imperialismo norte-americano na tentativa de consolidar um alinhamento automático na América Latina através de doutrinas intervencionistas regionais. Além disso, enfraqueceu os elos da extrema direita internacional com governos e forças ultraconservadoras da região e do Oriente Médio. No centro dessa disputa geopolítica encontra-se a cobiça sobre as riquezas naturais e estratégicas do país. O controle das reservas fósseis, dos recursos hídricos e da exploração de minérios de alto valor tecnológico, as chamadas terras raras, é a chave das disputas entre as grandes potências. A derrota eleitoral das forças alinhadas aos EUA colocou um freio momentâneo na entrega predatória dessas riquezas ao capital estrangeiro.
As eleições de meio de mandato de novembro nos Estados Unidos ocorreram sob um cenário de acentuado desgaste político de Donald Trump, cuja reprovação superou a marca dos 60% nas pesquisas. Essa insatisfação se converteu em uma acachapante derrota eleitoral ao presidente dos EUA, alterando significativamente a correlação de forças no país. Os resultados das urnas indicam uma expansão decisiva da presença democrata no Congresso, com a possibilidade de atingir 58 senadores (superando a maioria de 51) e 218 deputados (em uma câmara onde 250 constituem a maioria). No plano estadual, a mudança foi ainda mais contundente: três quartos do país passarão a ter governadores democratas, incluindo a conquista de cinco governos estaduais historicamente dominados pelos republicanos, como Kansas, Mississippi e Texas. No Texas, a eleição marcou a vitória de Hinojosa, a primeira governadora latina do estado. Outro marco histórico ocorreu em Michigan, com a eleição de Abdul El-Sayed, o primeiro árabe muçulmano a ocupar uma vaga no Senado. Esse rearranjo refletiu divisões demográficas marcantes: a oposição reuniu 70% do voto hispânico e 61% do voto feminino, enquanto Trump manteve a maioria apenas entre os eleitores brancos, com 51%.
No terreno das disputas programáticas, o pleito revelou tanto avanços da ala progressista quanto as limitações internas do próprio Partido Democrata. Se por um lado foram aprovadas cinco emendas apresentadas por Mandami, por outro registrou-se a derrota da Emenda 40 na Califórnia, proposta voltada à tributação dos mais ricos que acabou rejeitada devido ao posicionamento contrário de uma ala dos próprios democratas.
Para além das fronteiras estadunidenses, o enfraquecimento legislativo e a perda de força de Trump impõem novos obstáculos à sua agenda neocolonialista na América Latina e no Oriente Médio. No cenário brasileiro, essa perda de sustentação política reduz a margem de proteção e abrigo aos integrantes da família Bolsonaro nos Estados Unidos. Contudo, essa nova conjuntura permanece como um campo em disputa: crises internas no centro imperialista não impedem, por si sós, o desdobramento de aventuras externas, tornando indispensável a organização independente dos povos na resistência ao imperialismo.
A experiência brasileira conecta-se com um ciclo mais amplo de efervescência social no plano internacional, protagonizado pela juventude. Em diversas partes do mundo, jovens têm protagonizado lutas contra a precarização da vida, a crise habitacional, a militarização e a crise climática. A virada nas ruas brasileiras dialoga com o reavivamento das lutas de trabalhadoras/es na Europa, com destaque para as mobilizações operárias e estudantis em países como França, Espanha e Alemanha, e com a busca por alternativas radicais entre os jovens nos Estados Unidos e na América Latina. Esse cenário internacional demonstra que a resposta ao avanço da ultradireita e do capitalismo predatório exige uma perspectiva internacionalista e soberana.
O levante democrático e popular não produziu apenas a virada histórica e inédita no segundo turno presidencial: também elevou o custo político de uma tentativa de golpe, demonstrando que a defesa do resultado contava com uma base social disposta a se mobilizar. Isso não significa que a ameaça tenha desaparecido. As denúncias de ameaças, ataques e mortes de indígenas após a eleição, especialmente entre os Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul, expõem a violência que acompanha a reação à derrota. Há denúncias explícitas de retaliação ao voto indígena, inclusive de ameaça de envenenamento da água. Esse revanchismo deve ser enfrentado no contexto da violência territorial promovida por setores do agronegócio, pelo garimpo ilegal e pela grilagem, sem substituir a investigação da autoria e da motivação de cada crime. Defender os povos indígenas exige proteção imediata às comunidades, apuração e punição dos responsáveis, demarcação das terras e enfrentamento das estruturas econômicas que sustentam as agressões.
Mesmo assim, é necessária atenção à reorganização pela qual a extrema direita passará. A derrota na etapa eleitoral demandará dos entreguistas a formulação de novos métodos para dar cabo aos seus objetivos. Se em um primeiro momento Trump dá a entender que não encabeçará iniciativas golpistas no Brasil, vide o apoio nulo à vexatória carta publicada por Flávio no dia 28/10, não devemos menosprezar os interesses imperialistas em nosso país e nem duvidar do ânimo golpista da extrema direita brasileira.
4. Sentar na mesa com o inimigo: O Debate sobre a Frente Ampla e o Governo
Embora haja um diagnóstico comum de que a derrota da extrema direita representou um ganho tático indispensável para a classe trabalhadora, a relação com o novo governo e com o modelo de alianças políticas estabelecido abre um profundo debate no campo anticapitalista. Por um lado, desenvolve-se uma interpretação que compreende a continuidade da Frente Ampla, agregando setores que vão da esquerda aos liberais e à direita tradicional, como um arranjo democrático inevitável para isolar a ameaça neofascista. Um exemplo recente dessa lógica é o chamado ao debate do recém-eleito deputado Elias Jabbour a Renan Santos, dirigente do Missão/MBL (grupo de extrema direita, porém opositor aos Bolsonaro). Sob essa ótica, a tarefa central da esquerda deve ser a de compor a unidade de ação contra a reação imperialista e entreguista, ocupando espaços institucionais e bancadas parlamentares para vocalizar as reivindicações das ruas. A tarefa residiria em atuar como um polo de pressão à esquerda sobre o governo, tensionando pela realização de investimentos sociais e pelo cumprimento das promessas de campanha, ao mesmo tempo em que se disputa o rumo das políticas públicas contra as imposições do mercado financeiro e do chamado Centrão.
Por outro lado, corretamente, afirma-se uma crítica radical a qualquer forma de conciliação de classes. Essa perspectiva sustenta que a incorporação de representantes da burguesia e da direita tradicional no núcleo de governo compromete de origem a capacidade de realizar transformações estruturais. A gestão do capitalismo sob marcos de austeridade, como a manutenção do arcabouço fiscal, frustra as expectativas populares e acaba por pavimentar o retorno da própria extrema direita. A tarefa da esquerda exige manter total independência política em relação à Frente Ampla, recusando a governabilidade de conciliação e apostando em uma dinâmica combinada de luta parlamentar e mobilização autônoma da classe trabalhadora contra os patrões e o fascismo. Essa dinâmica, a única que poderá conquistar novas vitórias para a população, só terá êxito se as ações parlamentares estiverem a serviço da organização de pessoas e de mobilizações em rechaço aos ataques e à precarização da vida da maioria.
Há urgência na construção da luta com autonomia diante das burocracias, priorizando os métodos históricos da classe trabalhadora: a realização de assembleias de base nos locais de trabalho e estudo, o fortalecimento de comitês por bairro e cidade, as paralisações, greves estudantis e a preparação de greves gerais. O único poder real capaz de transformar a sociedade é aquele construído nas comunidades e nos locais de trabalho e estudo. A tarefa fundamental é construir uma alternativa de esquerda capaz de dialogar com as massas e formular um projeto de transformação da sociedade brasileira. Seu programa precisa fazer a ponte entre as diferentes pautas: a redução da jornada e o combate ao desemprego; o salário e a moradia; o transporte e a crise ambiental; o enfrentamento ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia; a defesa dos territórios indígenas e da soberania nacional. Essa unidade deve nascer das experiências concretas de exploração e opressão e da organização coletiva para superá-las.
As nuances desse diagnóstico refletem-se, por fim, no escopo das reivindicações e no programa político apresentado para o próximo período. De um lado, formula-se um programa focado na radicalização democrática e social. Esse projeto deve priorizar pautas urgentes, como a diminuição das horas de trabalho mantendo a remuneração integral, a garantia de gratuidade no transporte coletivo e o direcionamento maciço de verbas para o SUS e para o ensino público. Além disso, é fundamental o combate rigoroso aos feminicídios, o veto e proibição das plataformas de apostas digitais (BETS), a taxação dos super-ricos e a criação de políticas efetivas de reparação para as pessoas negras e indígenas. No âmbito institucional, faz-se urgente uma reforma política radical que extinga o orçamento secreto e as emendas parlamentares, democratize o judiciário e reorganize o STF, colocando-o a serviço da maioria. Exige-se também um controle social amplo sobre a gestão pública, integrando a transição ambiental a um novo modelo de desenvolvimento soberano.
É necessário um programa de ruptura estrutural e anti-imperialista. Isso passa pela anulação completa do atual marco fiscal e das medidas regressivas aprovadas nos últimos anos, como as Reformas da Previdência e Trabalhista de Temer e Bolsonaro, além do fim da terceirização e da revogação do Novo Ensino Médio. Da mesma forma, defende-se a recuperação do patrimônio público privatizado, devolvendo o controle da produção energética (como petróleo e eletricidade) e da exploração de minérios essenciais diretamente para as mãos da classe trabalhadora.
A defesa do patrimônio público exige também interromper os processos de desestatização e retirar expressamente empresas como os Correios e a Trensurb, no Rio Grande do Sul, de qualquer plano de privatização. Serviços postais e transporte ferroviário devem ser tratados como direitos e instrumentos de integração territorial, com investimento, valorização de seus trabalhadores e controle social. Sua gestão precisa responder às necessidades da população, e não à rentabilidade exigida por compradores privados.
5. As questões candentes e as nossas necessidades
O novo momento aberto pela derrota eleitoral do bolsonarismo impõe grandes desafios. Mesmo perdendo a disputa do Poder Executivo, a extrema direita preserva uma expressiva bancada no Congresso Nacional, o controle de governos estaduais relevantes e uma base social altamente radicalizada e ideologizada. A ameaça de golpe e de mudança de regime não foi eliminada em definitivo, permanecendo à espreita e alimentando-se de eventuais frustrações populares e da manutenção de políticas econômicas conservadoras.
Nesse cenário, é preciso celebrar a eleição de uma bancada de esquerda radical. Embora numericamente menor que a grande bancada da extrema direita, ela será fundamental para formular e defender um programa político e econômico de ruptura com a lógica neoliberal, apoiado na força das ruas. Sua atuação deve contribuir para organizar lutas e ampliar a capacidade de intervenção da classe trabalhadora, sem reduzir a política aos acordos parlamentares. Lula precisa governar com e para o povo, cumprindo promessas de campanha e promovendo mudanças que se façam sentir no salário, no tempo de descanso, no acesso à saúde, à educação e à moradia. Melhorar concretamente a vida popular é uma condição decisiva para disputar a parcela da classe trabalhadora que votou em Flávio Bolsonaro e retirar do bolsonarismo sua capacidade de explorar a frustração social.
No Rio Grande do Sul, a vitória de Zucco é um resultado a lamentar e um chamado à organização da resistência. As indicações já anunciadas sinalizam uma presença militar expressiva na futura administração, com nomes como o general Rogério Siqueira para Obras, Logística e Infraestrutura e o Capitão Martim para Proteção e Defesa Civil. Essa composição alimenta a preocupação com a militarização do governo e com a transferência de uma lógica de comando e disciplina para áreas que exigem participação popular e controle democrático. Caberá aos movimentos sociais, aos sindicatos e à esquerda enfrentar os ataques a direitos e aos serviços públicos e defender respostas às necessidades da população gaúcha.
As eleições municipais de 2028 devem ser encaradas com máxima seriedade, refletindo os métodos de construção próprios da classe trabalhadora. Em Porto Alegre, a vitória de Lula demonstra possibilidades para a disputa da cidade, sem garantir uma transferência automática de votos para a eleição municipal. Esse resultado nos coloca uma tarefa fundamental e um compromisso: construir uma chapa competitiva, enraizada nos bairros e nos locais de trabalho e estudo, capaz de responder às necessidades mais prementes da classe trabalhadora. Transporte acessível, moradia digna, saúde, educação, proteção contra enchentes e reconstrução urbana precisam compor um projeto de cidade elaborado com participação popular. Quaisquer que sejam os nomes da esquerda para as prefeituras, eles precisarão provar-se grandes organizadoras/es e agitadoras/es das demandas de quem vive do trabalho, além de possuírem a capacidade de animar as pessoas em uma perspectiva de vitória. A esquerda dispõe de figuras com essas características, como em Porto Alegre com Fernanda Melchionna, Matheus Gomes e Manuela d’Ávila; Santa Maria com Alice Carvalho; Pelotas com Jurandir Silva; e Cachoeirinha com Leo da Costa. De qualquer maneira, a escolha das candidaturas necessitará passar por um processo de construção ampla, com debates nas diferentes localidades das cidades, sendo definidas por meio de Prévias. Não podem mais ser permitidas negociações ocultas por parte das burocracias dos partidos ou conchavos escusos.
O fiel da balança no próximo período residirá na capacidade de organização autônoma das maiorias sociais. A experiência do segundo turno e a história demonstram que direitos não são concedidos pela benevolência dos governantes nem por arranjos de bastidores, mas sim arrancados pela ação direta e consciente daquelas/es que são atingidas/os. A dinâmica necessária, apresentada anteriormente, de disputa dos rumos do governo, mobilização independente e construção de uma alternativa de esquerda sem conciliação de classes, detém a premissa central de que somente a presença ostensiva do povo nas ruas poderá impedir retrocessos, impor uma derrota definitiva às forças reacionárias e avançar na construção de uma sociedade livre da exploração e da opressão.
Foto: Imprensa | ASSUFRGS Sindicato
